Press "Enter" to skip to content

NA RUSSIA, UMA CLÍNICA SOBRE RODAS ATENDE O INTERIOR

Gostou? Compartilhe!

Estação de Krasnoyarsk. Deixamos a linha Transiberiana para a linha Baikal-Amur à noite, então, após uma viagem de 12 horas, chegamos a pequena aldeia de Targiz (Таргиз), com uma população de 470 habitantes (2010), situada no distrito de Chunsky, região de Irkutsk, na Rússia.

Nós saímos do trem e estamos no meio do nada. Literalmente, pois não há plataforma e o prédio da estação está um pouco distante dos trilhos.

No entanto, dez vagões vermelhos, azuis e brancos marcados com uma cruz vermelha aguardam. O trem chama-se “Akademik Fyodor Uglov” (Acadêmico Fyodor Uglov), o trem hospital da estatal ferroviária russa RZD, nomeado assim em homenagem a Fyodor Uglov, um médico russo que em 1994 foi incluído no Guinness Book como o mais idoso cirurgião em atividade no mundo.

Uglov, que iniciou sua carreira na União Soviética em 1933 e tratou de feridos na batalha de Lenigrado (atual São Petersburgo), entre 1941 e 1943, aposentou o bisturi com a avançada idade de 99 anos, pouco antes de falecer, aos 103.

Fyodor Uglov – imagem: RusskieVesti

Um hospital sobre trilhos:

O hospital sobre trilhos foi criado, ainda no período soviético, como uma forma de fornecer serviços médicos para os empregados da ferrovia, isolados na imensidão da Russia, porém, o serviço acabou sendo disponibilizado a toda população. Atualmente, os cinco trens médicos da RZD levam atendimento médico as populações esparsas em mais de 200 áreas rurais remotas em toda a Russia.

Imagem: CBC

A ferrovia, única ligação com o resto do mundo:

Zinaida Mudovina, uma professora da aldeia, explica como a serraria fechou há alguns anos e como cerca de uma dúzia de famílias foram embora logo depois. É uma história comum na Sibéria.

A maior parte dos pacientes do trem são idosos, que, como Zinaida, não tem motivo ou interesse em se mudar para uma cidade maior. Em um dia é possível se consultar com até cinco especialistas.

“Somente os idosos são deixados aqui”, lamenta a professora de 50 anos. “Não temos internet, não temos telefones, não temos estradas e não temos clínica médica”.

Zinaida porém, prometeu a si mesma nunca ir embora – seu amor pela natureza a mantém aqui.

A ferrovia é a única ligação com o resto do mundo. Um caminho lamacento liga as casas de madeira umas às outras, mas é inadequado para veículos motorizados durante a maior parte do ano.

Zinaida inicia sua caminhada de 40 minutos até o trem médico. Uma ambulância com tração nas quatro rodas da época soviética passa por ela. O carro espalha lama ao longo da estrada, que possui buracos maiores que o próprio veiculo.

É a velha ambulância que transporta pessoas com dificuldade de locomoção até o trem.

“Se eles não tiverem ossos quebrados antes de entrarem na ambulância, eles precisarão de gesso quando chegarem ao trem”, brinca Zinaida.

Como ela, toda a aldeia converge para o trem hospital de 10 carros, ele só estará aqui por dois ou três dias por ano, ninguém quer perder isso.

Imagem: CBC

Um exército de especialistas a bordo:

O hospital ferroviário oferece os serviços de cerca de 10 especialistas gratuitamente, incluindo um cardiologista, um ginecologista, um neurologista e um oftalmologista.

A clínica itinerante também tem seu próprio serviço de imagens médicas, como raios-x e ultrassom e um laboratório no próprio trem produz resultados imediatamente.

A idade média dos pacientes é alta, mas a equipe médica é relativamente jovem. Valeri Antonov, especialista em ultra-som, tem 30 anos e ama trens desde a infância, ele está vivendo seu sonho trabalhando no trem como médico. Cada membro da equipe trabalha e mora no trem por um período de 15 dias.

O trabalho dificulta a vida familiar, diz Antonov, o que explica por que a maioria dos médicos é relativamente jovem. Mas ele diz que nunca se sentiu tão útil.

O trabalho também lhe dá a oportunidade de fotografar e descobrir áreas remotas de seu país, sua parte favorita da viagem são os túneis ferroviários ao longo do lago Baikal

Imagem: CBC

O principal objetivo da equipe é detectar doenças comuns em idosos como câncer.

Veja mais: Health Train Akademik Fyodor Uglov (vídeo com áudio em russo e legendas em inglês)

Texto original de Jean-François Bélanger para CBC: A Targiz: A Hospital on Rails

Com informações: The Telegraph, The BMJKomandirovka (em russo)

Traduzido e adaptado para o português pelo autor.

Leia mais:

O DILEMA DE UM PAÍS SEM TRENS DE PASSAGEIROS

MOÇAMBIQUE IRÁ INVESTIR 200 MILHÕES DE DÓLARES NA MODERNIZAÇÃO DE SUAS FERROVIAS

GOVERNO CANCELA RECURSOS PARA MOBILIDADE URBANA

RIO DE JANEIRO TEM O PIOR TRANSPORTE DO BRASIL, MOSTRA ESTUDO

INDEFINIÇÃO DO GOVERNO FEDERAL IMPEDE RETOMADA DOS TRENS DE PASSAGEIROS NO PAÍS


Gostou? Compartilhe!

One Comment

  1. André Mendes André Mendes 18 julho, 2018

    Aqui no Rio, parece que a bilheteira do trem da saúde é a Márcia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *