Ciro Gomes: o desafiante

BRASILIA, DF, BRASIL, 06-06-2018, 12h00: O jornal Correio Braziliense promove sabatina com os pré candidatos à presidência da república. Na foto o ex ministro Ciro Gomes (PDT) responde às perguntas. No auditório da sede do Jornal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
Gostou? Compartilhe!

Em 1989, Brizola e Lula se bateram pela hegemonia das esquerdas brasileiras. Deu Lula. Brizola, em seu profundo senso histórico, tendo em vista a real necessidade de fortalecer seu campo, deu seu voto de confiança àquele jovem político que, ironicamente, chamava de sapo barbudo.

Velho experiente, percebeu incongruências no PT. No episódio da deposição de Fernando Collor de Mello, Brizola identificava uma gana incrível naquele partido, querendo tomar as rédeas do protagonismo da esquerda, mesmo que aquilo representasse o enfraquecimento institucional do Brasil. Brizola ainda diria à época: “não se derruba o primeiro presidente eleito democraticamente depois de tantas décadas de ditadura e tutela institucional”, dentre outras verdades. Deu no que deu: uma presidente brizolista filiada ao PT caiu de maneira indesculpável.

Em 1998, atestando a sua falta de penetração no campo popular, Leonel Brizola decide encarar novamente as eleições presidenciais, só que dessa vez como vice de Lula. Perderam os dois, mas mais uma vez Brizola demonstrou sua altivez, vendo em Lula a liderança do futuro.

No ano 2000, o PT escreve a famigerada “Carta aos brasileiros”, em que busca diálogo com o mercado ou, em outras palavras, consente em manter a política de pagamentos de juros exorbitantes caso conseguissem alcançar o poder no executivo federal. E foi feito.

O trabalhismo, mais uma vez, se bateu diante de uma incompreensível capitulação do líder sindical. Em 2002, o PDT decide apoiar a jovem liderança de Ciro Ferreira Gomes, um indignado político cearense que percebeu o saque que o setor produtivo brasileiro, assim como os trabalhadores, estavam tendo com a ausência completa de rumo do nosso país.

Com a vitória acachapante de Lula em 2002, o Brasil iniciava um novo ciclo. Foi uma era de benevolência aos mais pobres, ainda que tivesse alguns vícios estruturais insanáveis. Pagamento de juros escorchantes ao baronato financeiro e crescimento econômico baseado na exportação de commodities. A conta chegou no governo Dilma Rousseff, com a grave recessão que acometeu o país, e baixou a média de crescimento do governo do PT aos níveis da Era FHC. Apesar disso, foi a desindustrialização do país que caracterizaria toda a Era PT, que alcançou níveis semelhantes ao da República Velha.

Ciro Gomes, em solidariedade ao campo popular, foi Ministro da Integração Nacional neste governo, sendo responsável por executar a obra de infraestrutura mais icônica dos governos do PT: a transposição do rio São Francisco. Nesse primeiro governo, morreria Leonel Brizola, em 2004, enterrado com honras de Estado, reconhecido inclusive pelo presidente à época, Luís Inácio Lula da Silva. Em 2011, por obra de Dilma Rousseff, no governo do PT, o Congresso Nacional colocaria o nome de Leonel Brizola no panteão dos Heróis da Pátria, ao lado de nomes como D. Pedro II e Zumbi dos Palmares.

A crise econômica reascendeu o ódio de classes no Brasil. Perseguição ao PT, culpabilização deste partido por toda a ordem de coisas equivocadas no nosso país, e perseguição injusta a Lula. A injustiça cegou os petistas, que não perceberam que a perseguição às esquerdas, algo comum e aceitável no Brasil profundo, bateu à sua porta. Mais do que isso: era o fim de um ciclo de um modelo econômico que gerou muito atraso no Brasil, e que o próprio PT resolveu fazer parte. O orgulho de Lula, ainda que injustiçado, não lhe permitiu enxergar o óbvio.

Apesar dos pesares, um grande nome do campo socialista democrático, Ciro Gomes, pautou-se, desde 2014, pela crítica violenta às escolhas do PT na economia e pela sua defesa no campo institucional. Era hora de autocrítica e mudança. O PT, mais uma vez, escolheu o fisiologismo. Seus figurões, alguns réus confessos, como Antônio Pallocci, foram parar atrás das grades, no exato momento em que o PT saía da democracia para entrar para a teocracia: deificação de Lula e verdade absoluta em suas posições, tal qual Ramsés VI, o maior dos faraós.

A empáfia da burocracia petista, mais e mais emulando a gerontocracia soviética, não assumindo suas derrotas, sua necessidade premente de recuar, como o PDT assumiu diversas vezes em sua história, tomou proporções nunca vistas antes na esquerda brasileira. Chegou ao absurdo de, nessa semana, impedir que o PSB se juntasse a Ciro Gomes nesse titânico desafio de tentar parar o carro do imperialismo norte-atlântico. Tirou-lhe mais da metade do precioso tempo de televisão a que teria direito. Pensou o PT, antes de mais nada, nos seus mausoléus, nas suas pirâmides, na memória das almas dos que virão ao mundo depois de nós. O rio Nilo, mais do que nunca, converte-se em filete de água podre. Não há lavoura. Não há silos. A civilização morre. E o PSB, um partido que vinha em enorme esforço para voltar às suas raízes progressistas, falhou em sua missão também. Serão cobrados igualmente. O espírito de Miguel Arraes já não se encontra pelos corredores dos diretórios do socialismo brasileiro.

Engana-se, no entanto, quem acredita que a academia será severa com a memória do PT. Não será! Tente você, simples cidadão, amante da história, atrever-se a contar a história de seu partido, seja trabalhista, socialista, comunista, ou qualquer outra denominação, na mira das trincheiras cavadas pelo academicismo petista nas universidades brasileiras. Somente o psolismo abriu flancos nessa linha defensiva intransponível. A academia é corporativista, ganhou muito nos anos do PT. Se beneficiou, mais do que de políticas de governo, de impressionante influência dentro do PT. São parte de seu projeto de poder. Temos uma Universidade igualmente cega, débil e, em muitos casos, até anti-nacional. Por todas essas razões, permanecerão calados!

Na política, o PT telegrafou a seguinte mensagem: se quiserdes o Olimpo, conquisteis! O PT enxerga sua liderança como maior ativo político. Exige que Ciro Gomes peleje e conquiste aquilo que Lula, a ferro e fogo, na visão deles, conquistou. Ledo engano! Balela cirandeira! Embuste sindical! Não enxergam um palmo a frente, cegos do orgulho! O maior ativo político de qualquer campo progressista, em qualquer lugar do mundo, é o Estado nacional forte. Sem ele, definharemos, e os liberais sabem disso. A maioria silenciosa depende de um Estado benevolente e presente!

Hemos de reunir forças. A esquerda, cada vez mais retalhada e autocentrada, já não pode ser parâmetro para nossas grandes expectativas. O setor produtivo, industrial, agrícola, comercial, os grandes bancos públicos, morrem à míngua. São eles quem darão suporte ao grande projeto popular. Kátia Abreu, a leoa do impeachment de Dilma Rousseff, acaba de aceitar seu justo lugar na história e sustentará Ciro Gomes como Presidente do Brasil. O PDT, apesar de seus defeitos, tenta a todo custo sua reestruturação. O Brasil nunca foi tão dependente do trabalhismo, por falta de opções viáveis, à direta e à esquerda. Mesmo as pautas ambientais estão completamente capturadas pelo sistema financeiro e pelo capital internacional com Marina Silva. 

Sigamos. Não temos tempo a perder. Haveremos de cobrar as posições de PT e PSB, haveremos de vencer o liberalismo entreguista e o fascismo incubado da sociedade e das instituições brasileiras. É a hora e a vez de Ciro Ferreira Gomes!


Gostou? Compartilhe!