LULA: MOEDAS DE PRATA E TRAIÇÃO

Arte: Lucas Pingu
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Carta a Luiz Inácio Lula da Silva,

Um beijo marcou a maior traição da história. Este beijo nos revelava a afeição do traidor para com o traído. Judas, andara com o Mestre, aquele que lhe deu vida, um novo ressignificado. Judas e Cristo, juntos, construíram multidões. Juntos, mataram a fome e a sede. Mas Judas preferiu trair a Cristo. E foi com o beijo de afeição, o beijo da confiança, que Judas guiou os executores ao paradeiro de Cristo.

Ciro não é Cristo. Nunca o pretendeu ser, enquanto muitos outros tentam atrelar a sua história ao um novo messianismo. Porém Ciro, hoje, assim como Jesus, experimenta um beijo amargo. Beijo daquele que por anos foi seu companheiro. Lembro-te Lula quando tu conheceu o Ciro, tu não eras nada. Ciro começava a galgar sua história. E tu, Lula, tentava transformar as massas sindicais em algo novo para o país, para o trabalhador. Naquele tempo, a mídia e a velha elite venceram, mas de Ciro, tu teve o voto.

O tempo passou. E nas sucessivas derrotas, tu e teu partido, encontraste a redenção. Ciro, por quase virou teu grande algoz, e por certo a muitos surpreendeu quando, abandonando velhos amigos, preferiste te apoiar, se despindo de qualquer preconceito que a mídia te colocava. Ciro te ajudou na grande vitória. E, um pouco descrente, sabemos, ingressou no seu governo. E assim juntos, vocês construíram multidões, mataram a fome e a sede de muitos. Ali parecia que uma verdadeira equipe se formava. Mas, talvez, Ciro, aos seus olhos, errara. Em determinado momento, Lula, tu reprovaste a atitude de Ciro de não ser mais um dos seus seguidores, de preferir manter o status de companheiro de uma caminhada. E então, tu, Lula, beijaste Ciro pela primeira vez. Entregaste, o corpo de Ciro a cruz, mataste sua candidatura em benefício de um soldado fiel.

Talvez tu não saiba, mas ali, quase destruiu um homem. Que se isolou, viu sua vida pessoal arruinar, que preferiu se afastar definitivamente da política, quando percebeu que o velho companheiro, tinha novos aliados. Aqueles que dantes te oprimiam a tu, Lula, e ao nosso povo, tu se amigaste. Eram os banqueiros que roubavam as moedas do órfão e da viúva, na forma de impostos para bancar juros. Se aliaste, a mídia que por décadas, esconderam do povo a verdade que liberta. Tu se enclausuraste com poucos, formaste doutores do certo e errado, intelectualistas que avocavam para si o rumo de toda uma luta, que no fundo, já não existia mais.

Hoje, tu bem sabe, que estes novos amigos, na verdade nunca deixaram de ser teus inimigos. E no teu erro, quando teu soldado falha, não vacilaram em te apunhalar e te encarcerar. Por certo, não venho aqui dizer da tua pureza ou podridão, torço, infelizmente, descrente, da sua permissão à ação dessas velhas camadas que tanto fazem mal ao nosso país. Talvez fosse o preço da tua glória.

Alguns amigos tentaram te alertar acerca do caminho que seguias. Judas era sabido por Cristo, ser um ladrão das ofertas, mas nunca deixou de pregar a ele sua mensagem, esperando talvez uma conversão que ele sabia que não viria. Teus amigos Lula, os verdadeiros, tentaram te alertar, mas diante da sua surdez seletiva, se afastaram. Ciro tentou permanecer. Tu sabes. Mas para os teus ouvidos e de seus seguidores farisaicos, o que Ciro falava era ataque e crítica. Meu Deus. Encurralado, apunhalado, recusa a ouvir os que um dia amaram. Não a ti, mas a ideia de que o pobre no Brasil teria vez, e que tu, Lula, é símbolo. O catador de lixo, a empregada doméstica, o sertanejo, o boia-fria do campo, ainda hoje, sonham quando escutam o nome Lula.

A ideia já estava quase morta, mas um milagre aconteceu, aquele que foste crucificado por ti, ressuscitou. E caminha numa peregrinação por todo o país buscando novos companheiros, muitos que haviam se libertado da fantasia religiosa, que tinham percebido que o mau tinha entrado no coração de muitos, e que o povo, agora sofrido, desempregado, sofrendo de violência, em todos os sentidos, necessitava, urgentemente, de uma esperança.

E Ciro vinha crescendo. Mas algo dentro de ti Lula, de dentro da tua cela, nasceu. As escrituras nos dizem que Satanás entrou em Judas. Não sabemos o que entrou em ti. Porém, o que entrou lhe cegou. Se tu tinha a possibilidade de ter a garantia de um processo correto e justo, para que provaste a tua alegada inocência, essa possibilidade viria com Ciro, que bravamente peita teus inimigos e promete restaurar a nossa democracia, restaurar nosso o país.

Entretanto, o que nasceu dentro do seu coração lhe diz que melhor é arriscar permanecer preso, açoitado e oprimido, do que ser ajudado por um antigo companheiro que resolveu crescer. O orgulho te prende. Tentas o impossível, pois não quer abrir mão de uma hegemonia, que hoje sabemos que tu não tens. Talvez tu nunca foste companheiro, e provavelmente Ciro sabia disso, mas em nome do país, Ciro preferiu se diminuir. Não é o seu caso. E agora, após novamente beijar a Ciro, com a ajuda de sua seita farisaica, que ainda persiste, que brada um “intelectualismo de esquerda” conduz entreguistas, rentistas, a mídia, teus inimigos ao paradeiro de Ciro.

E tudo, por 30 moedas de prata, a breve sensação de onipotência, de domínio, que logo vai se esvair. Judas, após receber o seu pagamento, muito se ressentiu, e nos conta a escritura que ele se precipitou em suicídio. Tu agora caminhas o que destino que escolheste. E a nós, como Pedro que desembainhou sua espada, cortando a orelha do centurião Malcom, nos levantamos, cercados para proteger nosso líder, a mensagem e projeto que ele carrega.

Ciro não é Cristo, a cruz não é uma opção. Se no contexto de Cristo a cruz nos redimiu, no atual contexto brasileiro de Ciro, a cruz pode ser fatal a milhares de brasileiros. O que entrou em ti Lula, entrou em milhares de nossos compatriotas e se personificou em um mal real, que nos remonta a episódios altamente tristes da história da humanidade.

Cercados, sozinhos lutamos, pois desejamos um amanhã. Muitos, inclusive teus antigos e atuais seguidores neste momento se compadecem de nós. Que a nossa palavra se espalhe. Que haja um amanhã. Lula que haja misericórdia na sua vida, nosso perdão já o há. Porém, rejeitamos o teu cálice.

FERNANDO MENDONÇA


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