Press "Enter" to skip to content

HADDAD SERIA A NOVA DILMA ?

Gostou? Compartilhe!

Um governante de temperamento difícil, baixo carisma, que não gosta de conversar com políticos, se furta a falar com movimentos, com ideia própria e que não houve seu mentor político. Pode parecer estarmos falando da ex-presidenta Dilma Rusself (PT), mas na verdade a conversa é sobre Fernando Haddad (PT). Com o impedimento do ex-presidente Lula em concorrer nas eleições presidenciais em 2018, por conta da sua condenação em segunda estancia, caindo na chamada Lei de Ficha Limpa, o Partido dos Trabalhadores se vê as pressas de tentar eleger alguém no lugar do ex-presidente.

Apostando numa transferência de votos automática, pedindo aos brasileiros que elejam um embaixador e não propriamente um presidente. A estratégia não é nova, em 2010, quando Lula estava prestes a sair, começou-se um debate para indicar quem seria seu sucessor, muitos nomes da politica tradicional do PT foram ventilados, como Marta Suplicy, Jacques Vagner, e até aliados, como Ciro Gomes, na época, ingresso no PSB de Eduardo Campos, falecido ex-governador de Pernambuco. E Lula surpreendeu a todos a escolher como seu sucesso, a desconhecida Dilma Rusself, gerente fiel em seu governo. A decisão não agradou a todos, mas funcionou. Dilma vence a eleições de 2010 em cima de Geraldo Alckmin (PSDB) e se torna a primeira mulher presidente do Brasil. Mas o que parecia ser o auge de uma brilhante estratégia eleitoral, se tornou pesadelo.


Dilma, que deveria ser uma mera longa manus de Lula, com seu temperamento, criou uma inesperada independência do ex-presidente, o afastando de decisões, criando inclusive uma corrente própria de apoiadores dentro do próprio petismo, gerando desconforto no partido.


Com a crise econômica, aliada a falta de capacidade de articulação política de Dilma, em seu segundo mandato, a presidenta sofre o processo de impeachment, processo este que, segundo alguns, nem seu próprio padrinho político teve tanto interesse em reverter. Nos bastidores, dizem que Dilma em pleno período de convencimento para barrar o processo, mal sabia o nome de senadores e deputados da sua base aliada.


Fernando Haddad, tem um histórico semelhante ao da expresidenta. Haddad após experiencia como Ministro da educação do governo Lula, foi alçado pelo ex-presidente como seu candidato a prefeitura de São Paulo em 2012. Vence as eleições e começa um conturbado governo a frente da capital paulista. A tentativa de aumento no IPTU, barrado pela justiça, no início de seu governo, gerou um profundo mal na população. Haddad se envolveu em outras polêmicas como a brutal redução do limite de velocidade nas marginais paulistas e a instalação de ciclovias em lugares de grande circulação, numa aposta do modal como solução para o transporte. As obras das ciclovias custaram um alto valor aos cofres públicos, e muitos consideram o tamanho das ciclovias como exagerado, chegando a ocupar uma faixa de pista, enquanto que em capitais como Paris, Amsterdam a largura das faixas são bem menores.

Haddad rapidamente se isolou em seu cargo. Movimentos sociais, base petista na capital, não conseguiam ter interlocução direta com o governo de Haddad. Vereadores aliados acusavam o exprefeito de abandonar a periferia, reduto de votos petista. Levantamentos apontam que a maior parte das poucas obras feitas em sua gestão, estavam em áreas ricas. “Erro de prioridades”, se queixavam. A comunicação da sua administração deixava a desejar, e o ex-prefeito não contava com a ajuda do governo federal, sob mando do seu partido, que estava em crise. Como resultado, Haddad foi varrido na sua reeleição, sendo o primeiro prefeito de capital da história a perder uma reeleição logo no primeiro turno. Seu adversário direto, e vencedor do pleito, João Dória do PSDB, fez a marca de 53% dos votos válidos. Haddad, cravou 16%. 


Nas dez zonas eleitorais com renda per capita mais baixa, a periferia, o prefeito teve perdas superiores a 65% em sua taxa de votos, na comparação entre a sua eleição e a sua tentativa de reeleição. O tucano João Dória fez grandes votações nas áreas mais pobres, algo impensável antes. Haddad saiu da prefeitura com reprovação recorde entre os prefeitos de capital, 39% dos paulistanos consideraram a gestão Haddad ruim/péssima, 40% regular, e apenas 18% consideravam a gestão boa/ótima.

As semelhanças entre Haddad e Dilma tem preocupados membros internos do Partido dos Trabalhadores. Haddad não foi unanimidade dentro do partido, a corrente liderada por Gleisi Hoffmann tentou até o último minuto tirar Haddad da disputa. Há um temor que em eventual vitória de Haddad, Lula seja deixado de lado, assim como foi no governo Dilma, e Haddad comece uma gestão própria sem consultas, repetindo erros cometidos na gestão da capital paulista, erros esses muito semelhantes aos que foram os mesmos da expresidenta Dilma. O ar acadêmico de ambos é interpretado como arrogância, e sua dificuldade em se articular politicamente, como uma característica fatal. Há um temor de que o PT saindo vencedor das eleições, haja uma nova não aceitação por parte da oposição quanto ao resultado, e Haddad não tenha força pra segurar uma eventual tentativa de processo de deposição.


Na linha econômica ambos divergem, enquanto Dilma era totalmente refratária ao liberalismo e adepta de um desenvolvimentismo consumista, que em seu governo foi misturada por um processo de não reformas estruturais e falta de combate ao rentismo. Haddad tem buscado se posicionar mais ao centro, sendo acusado por muitos de flertar com o neoliberalismo.

GOVERNO DILMA

A lembrança pode surpreender os mais críticos: no fim do seu primeiro mandato, a presidente tinha 59% de aprovação – o maior índice para um presidente neste período desde a redemocratização – e era elogiada por ser responsável pela “faxina ética”, quando demitiu ministros envolvidos em casos de corrupção. Com aprovação em alta, Lula começa a não ser mais consultado sobre as decisões do Governo.

A escolha de Dilma para suceder Lula, foi uma imposição do ex-presidente. Lula chegou a cogitar outros nomes petistas, mas a lealdade de Dilma e seu perfil gerentão, influenciaram na escolha, ignorando o perfil apolítico de sua então ministra. Ciro Gomes também era cotado para ter o seu apoio, mas Lula em articulação com Eduardo Campos, barra a candidatura do, na época, pessebista. Ciro sempre se recusou a se filiar ao PT, e era visto como alguém com personalidade e projetos próprios e que não obedeceria a ordens do presidente Lula.

Dilma e Temer eleitos com apoio de Lula

No entanto, as críticas ao governo não demoraram a aparecer. Depois dos anos de bonança do governo Lula, quando a economia chegou a crescer 7,5%, o PIB não repetiu o mesmo desempenho. A inflação voltou a subir e a crise econômica começou a afetar o mercado de trabalho, aumentando o desemprego. Somou-se a isso o andamento da operação Lava Jato, que envolve nomes importantes do PT.

Milhares em protestos contra Dilma

Os protestos contra o governo vieram na sequência, acompanhados pela queda da popularidade de Dilma e pedidos cada vez mais declarados pelo impeachment da presidente, que culminaram no julgamento desta semana no Senado.

Deflagrada em março de 2014, a operação Lava Jato começou a investigar um grande esquema de lavagem e desvio de dinheiro envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos.

Relação com o Congresso

No início do primeiro mandato, Dilma se aproveitou do capital político do ex-presidente Lula em suas relações com o Congresso. Porém, desde o início do mandato, os parlamentares aliados reclamavam que Dilma não os recebia. As queixas eram tão frequentes que levaram à troca do então ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, por Ideli Salvatti, que estava na Pesca. As reclamações da base aliada a Lula eram constantes, mas ele se via impotente de dissuadir sua sucessora a ouvir mais congressistas. Os movimentos sociais, base do governo petista, enfrentavam o mesmo problema

Dilma, Renan Calheiros e Temer

Um levantamento feito pelo jornal O Globo mostrou que, entre janeiro de 2011, quando assumiu, e outubro de 2014, Dilma recebeu com exclusividade apenas dois deputados federais e 13 senadores.

No primeiro ano do governo Dilma a economia já dava sinais de desaceleração. O ponto positivo ficou por conta do emprego formal, que se mantinha em alta: apenas 5% da população economicamente ativa estava desempregada. Para enfrentar a desaceleração, o governo apelou para medidas de desoneração, tanto para o setor produtivo quanto para os consumidores. Pacotes de estímulos fiscais e financeiros também foram lançados contra os gargalos de infraestrutura, como nas entradas e portos.

Segundo cálculos feitos por auditores da Receita Federal para a Folha de S. Paulo, as desonerações concedidas pelo governo desde 2011 somariam estimados R$ 458 bilhões em 2018, quando deveria terminar o segundo mandato de Dilma.

As desonerações aumentaram a dívida bruta do país. Em 2014, o setor público gastou R$ 32,5 bilhões a mais do que arrecadou com tributos — o equivalente a 0,63% do Produto Interno Bruto, o primeiro déficit desde 2002.

Eleições de 2014

A campanha presidencial de 2014 foi marcada pela disputa acirrada por votos e pela morte do candidato do PSB, Eduardo Campos, que estava em terceiro lugar nas pesquisas e era considerado uma via alternativa à oposição PT-PSDB. Marina Silva, substituta de Campos, logo saiu do páreo. Lula se reaproxima de Dilma e juntos fazem uma campanha na qual asseguravam ao país uma situação financeira falsa  de que o país estaria numa fase boa, foi reeleita com 51,64% dos votos válidos.

Lula sugere Henrique Meirelles, desafeto de Dilma, para ser o Ministro da Fazenda

Sabendo da situação real do país, Lula sugere a Dilma a chamar seu ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles a assumir o ministério da Fazenda, Meirelles era desafeto de Dilma. E então sem ceder a Lula, Dilma antecipa os nomes de sua nova equipe econômica para acalmar os mercados. Então executivo do Bradesco, Joaquim Levy é anunciado como ministro da Fazenda. No Planejamento fica Nelson Barbosa, também com longa experiência no governo.

Joaquim Levy e Dilma

Popularidade abalada

A popularidade da presidente se inverteu no segundo mandato, com os efeitos da real situação econômica e da crise de governabilidade.

A saída do PMDB, partido do vice-presidente, Michel Temer, da base aliada concretizou o isolamento da presidente no Congresso. O afastamento da presidente dos parlamentares se agravou com a marcha do processo de impeachment e o convite feito a Lula para ocupar a Casa Civil.

A tentativa de trazer Lula para construir pontes com os partidos enfrentou forte resistência e levou milhares de manifestantes às ruas, além de afastar possibilidades de novas alianças. Outras siglas, como o PRB, também saíram da base aliada.

Impeachment

Em dezembro de 2015, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, autorizou o pedido para a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em abril, a Câmara aprovou a Comissão Especial do Impeachment. Por 38 votos a 27, a comissão aprovou no dia 11 de abril o parecer do relator Jovair Arantes (PTB-GO) favorável à abertura do processo de afastamento da presidente. O afastamento da presidente também passou pelo plenário da Câmara, por 367 votos a favor e 137 contra.

O processo seguiu para o Senado. No dia 6 de maio, a Comissão Especial do Impeachment da Casa aprovou por 15 votos a 5, o parecer do relator Antonio Anastasia (PSDB-MG), favorável à abertura de um processo contra Dilma.

Em seguida, o plenário decidiu por 55 votos a 20 que a petista seria processada e, assim, afastada temporariamente do cargo para o julgamento. Ela deixou o cargo em 12 de maio. Em seu primeiro discurso na nova condição, Dilma Rousseff afirmou que o processo de impeachment era “fraudulento” e um “verdadeiro golpe”.

GESTÃO HADDAD EM SÃO PAULO

O petista em 2016 era reprovado por 40% e aprovado por apenas 18%, segundo o Datafolha. E perdeu no primeiro turno para João Doria (PSDB). Haddad deixou a cidade com grandes obras paralisadas e sérios problemas de zeladoria -assuntos de grande visibilidade e historicamente muito cobrados dos prefeitos paulistanos. Por outro lado, ele deixava outras marcas além das faixas de ônibus, embora menos midiáticas. Exemplos são a renegociação da dívida, que desafogou as contas da cidade, e a criação da CGM (Controladoria Geral do Município).

Haddad foi eleito em um cenário de crescimento econômico, com a promessa de revolução urbanística e social. Contando com a ajuda do governo de Dilma Rousseff (PT), ele elencava em seu plano grandes obras como 150 km de corredores de ônibus, 20 CEUs (centros de educação unificada), 43 unidades básicas de saúde e 55 mil moradias. A ajuda não veio e, quatro anos depois, não chegou perto de concretizar totalmente nenhumas das metas acima -o petista cumpriu 67 de 123.


Logo no início do seu governo, entrou em colisão com a população paulistana ao propor e conseguir aprovar um reajuste no IPTU, gerando críticas de setores importantes da sociedade. O aumento do imposto acabou sendo barrado pela justiça após a repercussão ruim.

Apesar da desaceleração na economia e a crise no governo federal, ele insistiu no ambicioso plano inicial, iniciando novas obras. Ao sair, deixou ao menos 35 delas suspensas, entre as quais um hospital, corredores de ônibus e um terminal de transporte, segundo dados do município. Alguns desses esqueletos de obras estão abandonados até hoje. Os planos de Haddad foram sacudidos logo no primeiro ano de gestão, pelos protestos contra aumento da tarifa de junho de 2013, o consequente congelamento da passagem e o reajuste do IPTU barrado pela Justiça.

Como resposta a junho, o petista focou em soluções baratas na mobilidade, que ajudaram a tirar os automóveis do foco da política de transporte. Ele fez 423 km de faixas exclusivas à direita, que tiraram os coletivos do congestionamento. Apesar de elogiada por especialistas, parte dessas medidas também gerou forte oposição e acabou sendo politizada e associada ao PT. Por exemplo, a criação de 400 km de ciclovias incluiu no viário um meio de transporte antes praticamente ignorado, mas foi criticada por comerciantes e houve até quem espalhasse tachinhas para furar os pneus das bicicletas.

Ciclovia em São Paulo

Haddad intensificaria o processo de redução de velocidades nas vias, incluindo as marginais Tietê e Pinheiros. Mesmo com a redução das mortes no trânsito, a medida gerou rejeição e foi usada por Doria nas eleições, que prometeu restabelecer os limites antigos nas marginais.

A zeladoria, cuja piora foi registrada nos indicadores, foi outro ponto explorado contra Haddad. Em 2016, a cidade varreu 22% menos lixo das ruas que em 2013. Os buracos tapados caíram para menos da metade no período -em 2016, por falta de dinheiro, a Usina de Asfalto chegou a praticamente parar.

Os cortes do petista em 2016 afetaram vários serviços e até o programa Leve Leite, mas, ao fim, ele entregou a prefeitura no azul à gestão seguinte.

Haddad sofre pesada crítica por ter tido uma profunda dificuldade de comunicação e diálogo da administração com a cidade. Não é apontado como uma pessoa particularmente afeita à comunicação direta com as pessoas, em massa. É um professor e, como tal, provavelmente lhe é mais fácil e seguro trabalhar os argumentos em grupos pequenos e com tempo para explicar bem suas ideias.

Haddad tinha por slogan “Fazendo o que tem de ser feito”, tido como muito ruim, que traduziria  arrogância e falta de empatia. “Fazendo o que deve ser feito” falava de processo e não de objetivos. Para cidadãos que se sentiam atingidos pelas medidas da gestão Haddad, dizer que aquilo devia ser feito”, soava como algo que eles teriam que engolir, querendo ou não. Não houve uma preocupação de mostrar aos paulistanos uma visão além de cidade.  E isso acabou por refletir na grande taxa de rejeição. No fundo, se mantinha a narrativa “nós contra eles” e isso influenciou na derrota acachapante. Numa gestão de grande porte, como a prefeitura paulistana, em cenário adverso de desaceleração econômica, a falta da capacidade de se comunicar com a população foi fatal.


Arredio a críticas, afastado de movimentos sociais de base, sobre intenso tiroteio da oposição, comunicação ruim, obras inacabadas, metas descumpridas, Haddad acabou por sofrer a humilhante derrota na sua tentativa de reeleição. O exprefeito, após a derrota, acusou a imprensa e a própria Dilma, por conta de sua derrota, que seria obra do antipetismo, e até o momento não fez uma autocrítica da sua gestão.

Haddad retoma alianças com PMDB


Não se sabe as implicações de um eventual sucesso na estratégia do PT de colocar um novo “poste” no planalto, existe uma tentativa do partido de reforçar, talvez para o próprio Haddad, o seu papel de embaixador petista numa eventual gestão. Porém, com a caneta na mão, há a dúvida se o ex-prefeito vai continuar aceitando esse papel.


Gostou? Compartilhe!

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *