CALAZANS: Ciclo vicioso da destruição do SUS

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Esta semana saiu dados interessantes de uma pesquisa mostrando que 57% do “gasto” no setor saúde vai para o setor privado e que o governo brasileiro, nos últimos 10 anos, isentou R$ 400 bilhões deste mesmo setor. Os países no mundo que têm sistemas universais, como o brasileiro, tem uma média de 70% a 80% do seu financiamento para o setor público, mas nós invertermos a lógica. Resumindo: o Brasil hoje tem um sistema universal na Constituição (SUS), mas investe no sistema mercantilista de forma direta ou indireta.

Conversava eu com um amigo corretor de saúde e ele falou:

– Marcelo eu acho que o SUS até poderia dá certo e eu teria que mudar de profissão, mas graças a deus os gestores são ineficazes e corruptos”, disse.

Na frase desse amigo tem um grande senso comum brasileiro que precisa ser abordado. Os nossos problemas estão calcados na corrupção. Mesmo eu mostrando os dados pra ele, o senso comum está enraizado de uma forma que vira quase um dogma. Aí perguntei pra ele:

– “Se os planos de saúde que você vende tivessem que aumentar a cobertura para o dobro de pessoas com o mesmo dinheiro, acha que dariam conta?”

Me olhou com cara de tacho e mudou de assunto para falar sobre o calor do Rio e futebol.

Temos problemas gerenciais e de corrupção no SUS e que precisamos enfrentar e aperfeiçoar os métodos de gestão, mas isso sozinho não resolve nosso problema. Não conseguiremos atender universalmente 200 milhões de pessoas em um país continental com um sub financiamento crônico e com um estímulo crescente para a hipertrofia das seguradoras.

Veja amigo leitor, cada vez que aumentamos as isenções tributárias e fortalecemos a rede privada acabamos sucateando a rede pública, que por sua vez aumenta a procura da rede privada, isso é um ciclo vicioso sem fim. Quando colocamos uma a PEC do Teto dos Gastos que limita o investimento em saúde por 20 anos, mas que não limita a isenção tributária, eu estou na verdade precarizando e inviabilizando o SUS. De 2003 a 2015, só de isenção tributária nós temos R$ 400 bilhões , o que dá mais de três orçamentos da saúde atuais (2019).

A questão é que estamos mudando a Constituição sem consultar o povo e, para piorar, estamos mudando para um sistema que atende 25%, a grande maioria das classes mais privilegiadas. É um efeito “hobbin Hood” às avessas, que diga-se de passagem, o Brasil já faz isso com louvor em várias áreas (educação, impostos…).

Essa distorção só se agrava na percepção negativa da população e os grandes feitos do SUS como vacinação, estratégia de saúde da família atendendo 60% do brasileiros, tratamento gratuito de HIV, disponibilização de medicamentos para doenças crônicas, transplantes e etc são suprimidos e escondidos. O que se fala e mostra é fila em hospital.

O governo brasileiro está estimulando um ciclo vicioso e todos nós sabemos aonde vai parar. Precisamos quebrar esse ciclo, discutir profundamente o sub financiamento do sistema e abrir para reciclar métodos gerenciais e na formação de profissionais para trabalhar no SUS. Em paralelo, temos que recuperar a imagem do setor público, precismos aumentar o grau de pertencimento do povão com o seu “postinho” e empoderá-lo para exigir melhorias.

E acima de tudo temos que sepultar o senso comum brasileiro da ignorância.

Marcelo Calazans – médico e professor


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