Dessalinização nacional já é comum no Brasil. Parceria com Israel Já Existe. André Trigueiro Rebate Bolsonaro.

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O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) anunciou nesta terça-feira (25) em sua conta pessoal no Twitter que enviará o futuro ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes a Israel em janeiro para negociar parcerias – entre elas uma técnica de dessalinização de água.

Bolsonaro informou que “ainda em janeiro” pretende construir “instalação piloto para retirar água salobra de poço, dessalinizar, armazenar e distribuir para agricultura familiar” na região nordeste.

A tecnologia, entretanto, ao contrário do que o presidente eleito dá a entender, já é dominada no país. No Brasil, o sistema de dessalinização da água já é usado em nove estados. O governo federal conta desde 2004 com o Programa Água Doce (PAD), desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente em pareceria com os governos estaduais, investe entre outras iniciativas na constituição de sistemas de dessalinização no semiárido nordestino.

“Busca-se fora do país uma solução que, na verdade, já vem sendo aplicada desde 2004 – com tecnologia nacional chancelada pela Embrapa – e que já resultou na instalação de 244 sistemas de dessalinização no Ceará, 44 na Paraíba, 29 no Sergipe, 10 no Piauí, 68 no Rio Grande do Norte, 45 em Alagoas, e 145 na Bahia.” e “Israel já é parceiro estratégico do Brasil há décadas no compartilhamento de tecnologias inteligentes na área da irrigação, principalmente o gotejamento, que reduziu drasticamente o consumo de água na fruticultura de exportação” comentou o jornalista André Trigueiro, especialista no tema ambiental.

André Trigueiro – Jornalista

DESSALINIZAÇÃO NÃO É A SOLUÇÃO

Usinas de dessalinização – especialmente as de grande porte como as desenvolvidas em Israel – demandam um consumo muito elevado de energia elétrica, além de necessitar de um plano de manejo adequado para as toneladas de impurezas removidas no processo. A energia necessária para produzir mil litros através da dessalinização é, em média, de 8 quilowatts-hora, equivalente ao consumo diário de uma casa de três quartos no Brasil.

Além disso, a técnica da dessalinização por osmose reversa -praticada em Israel- se utiliza de membranas que separam o sal da água e que exigem manutenção constante. Hoje, o custo da dessalinização pode ser cinco vezes maior que o da produção de água tratada convencionalmente, que é de R$ 0,33 a cada mil litros.

Dona Maria, moradora do sertão cearense e beneficiária do Programa Água Doce critica a iniciativa. Antes da unidade de dessalinização em sua comunidade, Maria precisava comprar a água que consumia, entretanto afirma que apesar de agora não gastar dinheiro com a compra de água, vê sua conta de luz aumentar cada vez mais.

“ A gente descobriu um santo para cobrir outro”, diz Dona Maria.

Dona Maria enche galão em tanque de dessalinização. Reprodução: Jornal Bom Dia Brasil – Rede Globo

DIFICULDADES DE TRANSPORTE

Segundo avaliam os especialistas, o problema para se garantir o abastecimento de grandes cidades distantes do litoral, como é o caso das regiões do semiárido nordestino, vai além do custo de produção da água dessalinizada, mas do transporte.

O Ceará, estado campeão em iniciativas para boa gestão dos recursos hídricos, incluindo a dessalinização, demonstra que projetos nesse sentido são mais vantajosos na região litorânea, como é o caso de Fortaleza.

Fortaleza é a primeira capital do país com um projeto para produzir até mil litros de água por segundo por meio de dessalinização até 2020

A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) que possui interesse em diversificar a matriz hídrica da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) estuda novos modelos de usinas de dessalinização e já firmou parceria com as empresas espanholas Acciona e GS Inima, que estão preparando estudo sobre o projeto.

Dessalinizador

OUTRAS ALTERNATIVAS

O Brasil conta com muitas outras alternativas para melhorar a gestão de recursos hídricos no país com tecnologia local. Entre as alternativas se encontra a utilização de água de reúso.

“Investir em usinas de dessalinização de grande porte por aqui poderia até ser uma opção se o Brasil esgotasse primeiro outras alternativas, principalmente, a exploração da água de reuso. Transformar a água tratada de esgoto em insumo agrícola, industrial ou até mesmo em água potável é uma alternativa mais barata e absolutamente viável. Hoje o esgoto coletado e tratado é lançado nos corpos hídricos sem qualquer utilidade ou serventia” comenta também o jornalista André Trigueiro.

 


A usina de dessalinização de Fernando de Noronha é responsável por 70% da oferta de água na ilha (FOTO: Vicel/Divulgação)

Na opinião do jornalista, se o presidente eleito quiser realmente contribuir para a gestão de recursos hídricos no Brasil, Bolsonaro deve abrir caminho para a água de reuso, mantendo os programas que já existem, destinados a levar cisternas e mini usinas de dessalinização ao Nordeste, concluir as obras de transposição do São Francisco (definindo as regras que garantirão a resiliência econômica do sistema), e estimular o consumo consciente de água.

RISCO AMBIENTAL

André Trigueiro também ressalta a importância de um manejo adequado dos rejeitos da dessalinização. A destinação ambientalmente correta dos rejeitos do processo de dessalinização é um dos desafios enfrentados e deve ser ponderada. Isso porque a osmose reversa gera outro tipo de água, muito salina, com risco de contaminação ambiental elevado. E, geralmente, esse rejeito é devolvido ao solo ou até aos cursos d’água, causando desastroso impacto ambiental.

Colaboração Victor Trindade
Com informações G1, Tribuna do Ceará e Agencia MBrasil


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