OPINIÃO: É preciso olhar pra fora das bolhas

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Hoje muito tem se discutido na esquerda e no campo progressista qual o papel da oposição, qual deveria ser seu direcionamento diante de um governo com um discurso que destoa dos consensos paridos na Nova República e consagrados na Constituição Federal de 1988. Tem crescido a idéia de que é necessário marcar posição e ser contra em todos os níveis. A lógica defendida é mesmo de negar a legitimidade de Jair Bolsonaro.

Não é a primeira vez que um tipo de oposição assim é defendida, porém. Em 2014, quando da vitória da Dilma, eleitores de classe média do Sul e do Sudeste do Aécio ficaram estupefatos com o resultado, afinal a esmagadora maioria das pessoas que conheciam tinham votado no tucano. Isso ocorreu porque aquela foi a primeira eleição que houve um deslocamento massivo do debate eleitoral para as redes sociais e nelas o reforço da perspectiva das bolhas.

Então muitos alegaram que a eleição de Dilma só poderia ser fruto de fraude e depois, diante dos números da votação, concluíram que a culpa era do Nordeste – isto é, de um eleitor distante, o que a lógica das bolhas das redes sociais impedia de ver que ele também estava por perto: Dilma venceu no Rio e em Minas, por exemplo. O PSDB foi na onda: achou que poderia gritar junto àquela bolha, que seria a representação da maior parte do Brasil, e que não era, e se dar bem. Foi ali que o PSDB começou a rumar para sua debacle.

Quando o governo de Dilma Rousseff começou a fazer água, já em 2015, faltava ao PSDB legitimidade pra direcionar a indignação popular que alcançava também quem havia confiado seu voto ao PT. Não apenas pelas suspeitas de corrupção que se avolumavam e recaíam sobre algumas de suas figuras, mas também porque havia ficado a impressão de que o partido tinha agido de forma pouco republicana e colocado seus interesses à frente daqueles que eram os do Brasil. Ou seja: para muitos brasileiros a crise também era culpa dos tucanos.

Hoje o PT faz a mesma coisa e está apostando, junto com a esquerda universitária e namastê, em negar a legitimidade de mandatários que, goste-se ou não, foram democraticamente eleitos e têm apoio popular (segundo Datafolha 65% acreditam que Bolsonaro fará governo ótimo ou bom enquanto só 12% apostam em um governo ruim ou péssimo) para fazer aquilo que lhes cabe: governar e colocar em ação seu programa.

Fazer oposição por oposição somente para marcar posição pode ser eficaz dentro da bolha que não aceita o resultado das urnas, mas é péssimo para fora dela. E o Brasil é bem maior que nossa rede de amigos no WhatsApp.


Wanderson Marçal


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