ELEIÇÕES NO CONGRESSO: Realidade imposta, narrativas frágeis.

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O Congresso Nacional vive momentos decisivos. A eleição de Rodrigo Maia coloca em lados opostos os cinco partidos da esquerda brasileira. De um lado, PT e PSOL mantém a narrativa de oposição implacável a Rodrigo Maia, insidioso político que irá aprovar integralmente a agenda bolsonarista. Acusam o outro lado da esquerda de não serem “representantes das pautas populares”. De outro, por motivos distintos, PDT e PC do B tentam ficar do lado do cacique que tem mais chances de levar a disputa.

Cenário Complexo

A corrida pelo Senado também já está a pleno vapor. Apesar disso, PT e PSOL mantém postura silente com relação à eleição de Renan Calheiros, que, segundo as próprias contagens do senador alagoano, hoje já somam cinquenta e seis votos. Mais de dois terços do quórum total. Simone Tebet, do mesmo partido, terá de trilhar um longo caminho se quiser se consagrar a primeira senadora presidente da casa.

É patente que o discurso partidário das cinco agremiações à esquerda têm mudado. As lideranças do PSB, reconhecendo antecipadamente que seriam derrotados em um bloco formado por PDT e PC do B, desfizeram o bloco e se aliaram a PT e PSOL. O PT, juntamente com toda a sua carnavalesca blogosfera, patenteou a falência de PDT e PC do B, colocando os ciristas em pânico, além de reenquadrar a esquerda brasileira novamente em torno do PT.

Apesar desta aparente jogada de mestre de Gleisi Hoffmann, há um conjunto de fatos que se impõem perante os partidos supracitados. O primeiro deles é que a eleição de Rodrigo Maia é dada como certa. Uma eventual vitória de Maia colocaria o PT completamente afastado da mesa diretora, devido a extrema inabilidade de sua cúpula no presente momento. Além disso, o apoio a Freixo, dado por Gleisi a poucas horas, não foi uma decisão comunicada à base petista, que promete dar a Maia mais de trinta votos, enfraquecendo o movimento petista.

Concomitantemente, o PSOL não percebe o perigo que se avizinha. Há um consenso claro dentro do PT de afastar a “direita petista” das decisões partidárias, consubstanciada por Jacques Wagner e Fernando Haddad. O objetivo de Gleisi, ao patrocinar uma “volta às raízes” do PT, é deslocar o PSOL da centralidade do discurso identitário, tão bem aproveitado por sua crescente bancada. Ainda assim, antes de acabar com o PSOL, o PT precisa se preocupar com o Trabalhismo…

Se antecipando à derrota eminente diante de 25 trabalhistas e 9 comunistas, além de 10 socialistas, em um universo de 69 deputados, o presidente Carlos Siqueira resolveu puxar o partido pelo beiço e fazer uma nova coalizão com PT e PSOL. Para isso, terá de frear os ímpetos do alagoano João Henrique Caldas, que ainda mantém sua candidatura à presidência da Câmara. O PSB ainda não declarou apoio a Freixo. Paulo Câmara, governador de Pernambuco e principal liderança política pessebista, já prometeu apoio a Maia, perfazendo sete votos a mais para o democrata. A ver.

Tendo todo o cenário em vista, é difícil declarar vitória tal como o PT tem feito, ainda mais porque a presidente do partido tem frequentado o Palácio Miraflores, cujo soberano não é bem visto pelo grosso da população brasileira, por inúmeras razões. A cereja do bolo é o reconhecimento de Juan Gerardo Guaidó Márquez como presidente da Venezuela por parte de Donald Trump. Imediatamente, Justin Trudeau e Jair Bolsonaro seguiram o movimento político de Washington. O projeto continental petista tem estado a perigo em função de decisões como essa, que expõem negativamente o partido perante um grande público que não tem grande conhecimento do que realmente tem ocorrido na Venezuela.

Do outro lado da disputa pela Câmara, temos PDT e PC do B. O primeiro partido tem como objetivo antecipar-se ao PT e garantir o máximo de de comissões e cargos na mesa diretora, o que daria poder real ao partido, historicamente isolado. O PC do B tem preocupações mais imediatas, em função de haver ameaças por parte do bloco de poder de Bolsonaro de abrir a famigerada CPI da UNE.

O PT, por seu turno, enxerga uma aliança entre PC do B e PDT como traição histórica, já que o PT sempre reservou aos comunistas importantes espaços de poder. Se é verdade que o PDT pode vencer e garantir muito mais poder que os outros partidos de esquerda, é igualmente verdade que, perante a opinião pública, o PDT será retratado como um partido fisiológico, além de ser o único responsável pela vitória de Maia, da mesma maneira que Ciro foi responsabilizado pela derrota de Haddad. O PT domina os círculos intelectuais do Brasil, as universidades públicas, e o PDT precisa entender que uma vitória na Câmara pode representar uma derrota perante a classe média que colocou o PT no poder, e que agora parece estar órfã. A guerra é, portanto, pela massa crítica da sociedade, que não é mais petista, mas pode voltar a ser.

Ainda assim, a narrativa petista sobre Maia não se sustenta. A família de Jair Bolsonaro tem enfrentado severas acusações, que têm como principal objetivo enfraquecê-lo perante o Congresso Nacional, fazendo-o aprovar todas as reformas de interesse de rentistas e do capital internacional. Se é verdade que Rodrigo Maia é liberal, é verdade também que o mesmo não quererá se manter como aliado de uma estrutura política assentada em milícias no Rio de Janeiro, estado natal de Rodrigo Maia, e aonde o deputado possui grandes ambições políticas. A narrativa de que “todo direitista é igual” parece não encontrar eco na relação entre família Maia e família Bolsonaro.

Tendo em vista todos os imbróglios da Câmara, é sabido que os portões do Congresso Nacional são cerrados quando é eleito o presidente do Senado Federal. É aí que há a grande reviravolta dessa história: PT apoia Calheiros, e são seis votos em cinquenta e seis. O PDT, por hora, tenta articulação com Tasso Jereissati, mas a principal desafiante de Renan parece ser Simone Tebet (MDB-MS). Dessa forma, é patente que o PT aplica o discurso de acusação na Câmara, mas mantém seus interesses em voga no Senado. O PT sabe que não pode se manter isolado nas duas casas ao mesmo tempo. PDT opta por manter influência na Câmara, enquanto o PT mantém seu poder no Senado. Marcelo Freixo, aliado de última hora do PT, afirmou em entrevista recente que “votar em Maia é ser de direita”. Ao ser questionado sobre Calheiros, emudeceu. Dois pesos e duas medidas, certamente.

De maneira geral, percebemos que a política continua sendo a política. Articulações, intrigas e assassinato de reputações. Essa é a proposta da maioria dos partidos políticos brasileiros. Não há revoluções, e cada um conhece muito bem os seus limites. No final, quem pode mais chora menos. A democracia, em seus rituais de infâmia, vai sobrevivendo, porque, do contrário, teríamos uma ditadura infinitamente mais medíocre do que o regime vigente. As instituições servem de peso para a mediocridade alheia.


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