OPINIÃO: “O Exército não matou ninguém…”

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Ninguém tem nome, tem endereço, identidade;
Ninguém pode mais, andar em paz pela bela cidade.
Ninguém tem família que chora a dor da sua verdade.
Se foi papai, se foi marido, restou a saudade.

Ninguém tem direito de exigir solidariedade,
Ninguém sequer foi tratado com humanidade
Ninguém foi calado, por uma injustificável barbaridade
Ninguém pôde contar com a mão estendida da autoridade

Por ninguém uma nota nas redes foi escrita
Ninguém viu uma única lágrima com a pergunta da jornalista
Ninguém é preocupação ou alvo de justiça
Pois ninguém é pobre e não vestia uma farda bonita

Ninguém acredita nesse falso lamento
Que dura 5 segundos sem nem seu nome citar
Logo dá lugar a 2 minutos de explicação
Na vã tentativa de preservar a instituição
Que matou quem devia guardar

Ninguém vai tocar novamente seu cavaquinho
Findou a festa, fechou-se a cena, e ninguém tá sozinho
O gosto forte, de chumbo e morte ninguém sentiu
Enquanto o deboche frouxo e o descaso altivo, à família de ninguém destruiu

Quem é que traz ao filho do ninguém algum consolo?
Já que o papai não estará mais nas fotos clássicas atrás do bolo
Nos aniversários um buraco ninguém deixará
Se é que o menino vai ter força pra um dia comemorar

A cama de ninguém ficou fria e maior
Sua esposa querida, companheira da vida
Chora um pranto de dar dó
A casa guarda o cheiro de ninguém
Seu timbre de voz, de um sofrimento atroz, faz a moça refém

Ninguém se foi e a culpa de tudo carregou consigo
Ninguém protesta, ninguém reage contra tanto estampido
Ninguém confronta a omissão cruel e a barbárie aviltante
Ninguém viu o lamento sem pranto de seu comandante

Ninguém acredita que tenha sido um reles incidente
Incidente é atraso, engarrafamento, não 80 tiros em gente
Gente, é importante que se repita pra lembrar que ninguém é gente.
O fuzilamento de ninguém, inocente, NÃO É MERO INCIDENTE.
E nem precisa ser presidente
Pra sentir e lamentar de verdade
Basta ser gente.

Ninguém é mais nada, não tem mais valor, chegou o seu fim
Ontem foi Evaldo, pai e marido inocente fuzilado
amanhã esta alcunha, de um ninguém desprezado
chega em tu, chega em mim.

É claro que o exército não matou ninguém,
Desde quando, nesse país, preto e pobre é alguém?
Desde o seu “descobrimento” pra ter voz e reconhecimento
Tem que casar bons vinténs
Do contrário, incidentes acontecem e matam com desdém.

Afinal pra alguns, se atrás do fuzil há um homem de farda, do outro lado só pode haver um ninguém.

Eric Jóia


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