As muitas contradições do ministro Weintraub – parte 2

Ministro Abraham Weintraub falando sobre ensino médio e ensino técnico, em apresentação no Senado Federal, em 7 de maio de 2019.
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Quinta-feira passada, começamos uma série de textos para analisar e contrapor algumas das falas do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante sua apresentação na Comissão de Educação, Esporte e Cultura, do Senado Federal, no dia 7/5/2019. O primeiro texto se concentrou sobre a contradição entre a defesa de embasamento científico para as políticas públicas e as práticas nada embasadas adotadas pelo Ministério até agora. Hoje nos dedicamos ao tema do ensino técnico e sua relação com mercado de trabalho.

O ministro parte de um diagnóstico inegável: o alto índice de evasão escolar no ensino médio.

Sua explicação para a evasão — para a qual não encontramos qualquer estudo que embase, mas podemos aceitar como hipótese —  é a de que alunos, especialmente os mais pobres, abandonam a escola para se inserir mais cedo no mercado de trabalho. Sua solução — que ele qualifica como pragmática — é “ensinar um ofício” para os jovens, alegando (1) que o índice de evasão das escolas técnicas seria bem mais baixo que as de ensino técnico regular e (2) que empregos para quem tem ensino técnico pagam melhor do que para quem tem apenas o ensino médio regular .

Para a primeira argumentação, o que o ministro omite, ao fazer essa comparação, é que o ingresso nas escolas de ensino técnico se dá, via de regra, através de exame de admissão. Só esse fato já produz uma enorme diferença no perfil dos estudantes dessas escolas em relação à média das escolas públicas. São jovens que, por estímulo familiar ou da escola anterior, tiveram conhecimento dos cursos de ensino técnico e preparo acadêmico suficiente para que fossem aprovados. Portanto, a comparação justa seria a de evasão dos cursos de ensino técnico com a evasão do ensino médio regular em escolas que também requerem exame de admissão: em ambos os casos, estudantes que tiveram acesso a informação e recursos e fizeram um investimento de tempo e esforço para sair do caminho que seria o esperado deles em busca de uma escolaridade melhor.

Sobre a diferença salarial, o ministro apresenta o dado que uma vaga para quem tem ensino médio técnico paga 18% a mais do que uma vaga de ensino médio regular. Porém, os alunos que abandonam o ensino médio o fazem por empregos de nível fundamental ou mesmo por trabalho informal. A perspectiva de receber um salário melhor no futuro — seja ele de ensino médio regular ou ensino técnico — não é suficiente para manter na escola o jovem que vive sob a pressão de ajudar o sustento da família no presente. Tivemos no Rio de Janeiro, durante alguns anos, um programa chamado Renda Melhor Jovem, que buscava justamente a retenção de alunos em situação de vulnerabilidade, com alto índice de sucesso. Chegou a ser premiado internacionalmente, mas foi descontinuado devido ao estrangulamento econômico do estado.

Ministro Weintraub aponta como um obstáculo para o crescimento do ensino médio um suposto preconceito dos brasileiros com essa modalidade de ensino, que teriam preferência pelo ensino superior. Ele compara com países desenvolvidos em que “um profissional técnico é tão ou mais valorizado do que alguém com diploma universitário”. Em primeiro lugar, questionamos a premissa de preconceito contra o ensino técnico. Vimos nos últimos anos a expansão da rede de escolas técnicas com a criação de Institutos Federais por todo o país e o ministro não apontou nenhum dado que indicasse a baixa procura por vagas nessas escolas. Pelo contrário, o que tem sido noticiado são alunos dos IFs se destacando em competições internacionais.

Em segundo lugar, sobre o pouco prestígio das carreiras, acreditamos que se deve mais às possibilidades de proporcionar uma vida digna do que a preconceitos. Nesse momento, o ministro faz mais uma de suas “confusões”: cita uma pesquisa recente que indica que, mesmo com desmprego em alta, há oferta de vagas para profissionais “que tem ensino técnico, em áreas de tecnologia”. Fazendo uma pesquisa na internet, a matéria recente que encontramos sobre vagas ociosas, publicada dois dias antes da apresentação do ministro, é uma do Estadão. No entanto, ela diz respeito a vagas na área de tecnologia, sim, mas muitas delas para nível superior e trata como “remendar o problema” dar treinamento intensivo para novos funcionários que não tenham nível superior na área, como atesta um dos entrevistados: “A pessoa formada em Ciência da Computação é ideal, mas temos programadores formados em Direito”. Ou seja, preferem buscar alguém de fora da área de tecnologia do que alguém com diploma de ensino técnico.

Weintraub parece ignorar que a preferência das pessoas — tanto as que abandonam o ensino médio quanto as que optam por ingressar no ensino superior — tem uma base material. Nos países europeus que ele cita como exemplo, as pessoas têm garantidas saúde pública, educação gratuita para seus filhos, moradia subsidiada, opções de lazer etc. Podem, portanto, fazer uma escolha de carreira mais “vocacional” e serem valorizados pela contribuição à sociedade independentemente do diploma que possuem. Esses mesmos países são os que garantem salário mínimo digno, jornadas de trabalho mais curtas e outros benefícios ao trabalhador.

A realidade brasileira é a de que um diploma de ensino superior aumenta tanto a taxa de empregabilidade quanto a média salarial. Ainda assim, apesar de o ministro adotar um discurso de defesa do ensino técnico, essa rede vem sofrendo com cortes de orçamento e muitas escolas perigam fechar. Sem nem entrar no mérito de que a educação é algo muito mais amplo do que o mero preparo para a inserção no mercado de trabalho, perguntamos: Se este governo advoga que a universidade não seja para todos (dedicaremos um outro texto exclusivamente a esse tema), quais são as políticas concretas que propõe para garantir uma vida digna aos jovens?


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