Liberais abandonam Bolsonaro e atacam Olavo de Carvalho

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O MBL não apoiou Bolsonaro no primeiro turno. A adesão veio depois de tentar apoiar dois outros candidatos. O primeiro foi o tucano João Doria, que flertou com a ideia de concorrer ao Planalto e, brecado por Geraldo Alckmin, acabou saindo candidato ao governo de São Paulo. O seguinte foi Flávio Rocha, dono das lojas Riachuelo, filiado ao PRB, que ficou longe de decolar e desistiu. O MBL então mergulhou de cabeça na campanha em favor de Bolsonaro.

No domingo anterior à etapa final da eleição, o movimento participou de um ato na Avenida Paulista, em São Paulo. Em cima de um carro de som, lideranças do MBL chamaram petistas de “vagabundos” e disseram que o voto em Bolsonaro salvaria o Brasil de “virar uma Venezuela”. Para o movimento, esse discurso fazia todo o sentido. Os seguidores do MBL e do presidenciável do PSL tinham muito mais em comum do que a estética — a predileção por usar camisas amarelas. Eram todos parte de uma espécie de panconservadorismo, uma frente ampla de setores de centro, direita e extrema-direita. Naquele momento, Kataguiri e Val já eram fãs das ideias de Paulo Guedes para a economia. A despeito de reservas que poderiam existir em outras áreas, o antipetismo os unia.

Para usar uma metáfora bem ao estilo de Bolsonaro, o namoro, porém, acabou antes de virar noivado. Logo no começo do governo, as lideranças do MBL perceberam que o presidente saiu do púlpito da Câmara, por onde esteve por quase três décadas, mas o púlpito da Câmara não saiu dele. Um dos primeiros sinais públicos do descontentamento do MBL ficou evidente no final de março, quando o governo não tinha nem completado seus 100 primeiros dias e pipocaram declarações de significado bem distinto do discurso liberal vendido durante a campanha.

O estopim foi a mistura de um metal com uma fruta. Já eleito, Bolsonaro prometeu proteger o nióbio e impor barreiras à entrada de bananas importadas do Equador para beneficiar produtores brasileiros. As falas protecionistas foram demais para os liberais do MBL. Em um vídeo de 15 minutos postado no YouTube no dia 31 de março, os jovens do movimento ridicularizam o presidente durante uma breve passagem pelo município de Registro, no Vale do Ribeira — região de São Paulo onde Bolsonaro viveu sua infância e juventude e que é conhecida pela produção de bananas. Nas imagens, o MBL sai à procura de nióbio em plantações de banana. Renan Santos, um dos coordenadores e o principal formulador da linha de ação do MBL, pergunta a um comerciante de frutas: “Você sabia que o Foro de São Paulo ( que reúne partidos de esquerda e é demonizado pelos apoiadores de Bolsonaro ) mandou o Equador enviar bananas para cá e acabar com a região?”. O vídeo foi batizado de “Devolvam o nosso nióbio”.

Na quinta-feira 9, falando a revista  ÉPOCA na sede do MBL, um galpão com estilo de centro acadêmico na Vila Mariana, bairro da Zona Sul de São Paulo, Santos subiu vários tons na crítica. “O governo Bolsonaro é o maior inimigo da direita republicana, que é o que a gente defende”, disse.  Santos acredita que o estilo alternativo deve fazer parte da estética da nova direita. Antes de ajudar a fundar o MBL, ele chegou a estudar Direito na Universidade de São Paulo (USP) e diz ter tido uma empresa metalúrgica. Não concluiu a faculdade e teve de fechar a empresa. Ao discorrer sobre o cenário político, abusou dos gestos e não deixou de lado os palavrões. Quando se empolgava com uma formulação ou com a recordação de algum fato marcante, batia com as mãos nas próprias pernas. Para ele, o problema do governo tem nome e sobrenome: Olavo de Carvalho. Na visão do MBL, o guru de Bolsonaro, que parece falar com anuência do presidente, “não acredita nas relações republicanas” e na política pelas vias institucionais. “Defender que a articulação política é crime vai contra o que a gente representa. O Bolsonaro é a morte de nossa ideia”, disse.

Assim como o MBL, o economista Delfim Netto é um bolsonarista de segundo turno — num voto que ele chama de ato em “legítima defesa”. Em sua opinião, Luiz Inácio Lula da Silva foi um presidente extraordinário, fez coisas muito interessantes, mas o governo de Dilma, do qual ele chegou a ser uma espécie de conselheiro informal, foi uma tragédia. Para não permitir a volta da agenda que ficou conhecida como “Nova Matriz Econômica”, de forte intervenção governamental, o economista optou pelo PSL no final de outubro. Arrependido? Para ele, a palavra arrependimento parece uma tolice. Ele argumentou que naquela hora a decisão parecia ser correta. “Mas, quando o futuro vira passado, você fica muito mais inteligente”, disse.

Delfim disse ser impossível não ver a confusão gigantesca que se montou. Para ele, o governo joga uma casca de banana do outro lado da rua e sai correndo para escorregar nela. Trata-se, em sua visão, de uma administração que se esmera na criação de problemas, não na solução. “Não se faz política tratando seu opositor como inimigo. O presidente precisa ser um criador de consensos. É isso que falta. Se ele produzir separação, não vai a lugar algum.” Para além de criticar o estilo da atual administração nos contatos com o Congresso, Delfim acha preocupante a ideologia que parece dominar o Planalto, a crença de que, com a ajuda das redes sociais, há uma linha direta entre o governante e os governados. “Não há como organizar a sociedade a não ser por meio da política. Esse mecanismo ( das redes sociais ) é muito próximo da democracia direta, da democracia plebiscitária, que, como já dizia Platão, leva à tirania. Se a voz do povo é a voz de Deus, você não precisa do Supremo Tribunal Federal. Basta ter as pesquisas do Ibope”, disse. “A sociedade não quer justiça, quer vingança. Esse negócio não tem como produzir uma sociedade civilizada”, completou.

Como vários outros economistas de primeiro time, Delfim fez muitos elogios a setores do governo, como o da Infraestrutura, e também à agenda econômica de Paulo Guedes, mas até nesse ponto levantou algumas ressalvas. Ele argumentou que as reformas da Previdência e a tributária são totalmente necessárias, mas não serão suficientes para colocar o Brasil no rumo do crescimento e resolver o grave problema do desemprego ( pensamento que se repete entre economistas ). Para crescer, será preciso atrair investimentos e melhorar as exportações. Delfim elogiou o fato de o governo ter bloqueado partes dos recursos do Orçamento deste ano porque as previsões de crescimento da economia em 2019 estão caindo. Previu outros cortes mais à frente. “Se o Guedes não tomar as providências que está tomando, chegará ao final do ano com um déficit gigantesco”, disse. Ao falar da execução dos cortes pelo Ministério da Educação nas universidades, Delfim voltou a levantar os pés e a inclinar o corpo. “O que estamos fazendo com a educação? Essa tentativa de desmoralizar a inteligência é uma demonstração de uma profunda ignorância.” Na opinião de Delfim, Bolsonaro acabará aprendendo a governar.

O empresário Flávio Rocha, das lojas Riachuelo, faz coro. Ele concorda que é preciso que Bolsonaro adote uma agenda positiva e deixe para trás o discurso do “nós contra eles”. “Viramos um PT da direita. E estamos nos perdendo nisso. O que está faltando é trocar o chip de campanha para o chip de governo. Sair do plano menor, de conflito, e ir para o plano maior, de projeto para o país”, disse.

Uma das vozes mais populares da nova direita, o cantor e compositor Lobão foi adepto de primeira hora da campanha bolsonarista. “Quando Bolsonaro abraçou Paulo Guedes, mostrou uma cartilha de economia liberal, e comecei a pensar: ‘Poxa, sou a favor da privatização, contra essas benesses’. O Bolsonaro é um homem bom, conheço o Bolsonaro. É um cara mais exótico, mas é uma pessoa que considero boa.”

No entanto, os ataques aos ministros militares, as disputas internas e as indicações políticas de Olavo de Cavalho, entre outras crises, fizeram com que Lobão rapidamente elaborasse um diagnóstico pouco alentador: “Tudo isso configura uma seita fanática, autoritária, beligerante, digna de camisa marrom. A direita no poder parece um elefante numa loja de porcelana. Ninguém sabe se comportar direito. Confundem conchavo com negociação política”.

Lobão projeta à frente o resultado de tanto obscurantismo: “Quem quer fazer livre-iniciativa, empreendedorismo, economia pujante, cultura livre e plural não pode viver sob a paranoia. Qualquer coisa que fale contra, você é comunista, positivista, você não entende o estamento burocrático”.

O cantor atribuiu parte da paranoia à influência de Olavo de Carvalho, tido como “pernóstico” que abusa da carência intelectual dos jovens. “O Bolsonaro é refém emocional, psicológico e intelectual do Olavo. O Olavo é um manipulador, sociopata. Quando ele pega três filhos do presidente que têm uma base intelectual sofrível, assim como o próprio presidente, e oferece de forma fascinante um cabedal intelectual… Ou seja, o Olavo é uma figura fascinante. E, como todo sociopata, ele é altamente sedutor.”

O economista Rodrigo Constantino, que ganhou notoriedade nos últimos anos com artigos na imprensa com forte viés liberal, argumentou que existe um risco de Bolsonaro causar um estrago ao pensamento conservador no Brasil. “O povo mais leigo, que não acompanha o dia a dia da política, não vai diferenciar o joio do trigo. A possibilidade de o governo fracassar é uma preocupação que eu, como representante do liberalismo com viés mais conservador, venho externando. Por isso, me tornei muito crítico do governo.” Constantino considera ser cedo para colocar o bolsonarismo como principal alvo a combater. “É um inimigo relevante justamente porque fala em nome da direita, defende um monte de porcaria e usa o mesmo rótulo. Mas acho prematuro dizer que é o maior inimigo quando ainda temos uma esquerda estruturada na academia, na imprensa e na própria política.”

Até mesmo o líder da bancada da bala, um dos temas prediletos da família Bolsonaro, o capitão Augusto Rosa (PP-RS), teme pelo desgaste da direita no governo. Crítico da relação entre o Executivo e o Legislativo, Rosa renunciou à vice-liderança do governo na Câmara. Em sua visão, o governo deve isolar Olavo de Carvalho para pacificar a relação com o Congresso. No último dia 6, Rosa ganhou destaque no noticiário ao afirmar que Bolsonaro corria risco de impeachment em razão da péssima relação com os parlamentares. O deputado tentou consertar: “Se a reforma da Previdência for um fiasco, inevitavelmente vai levar a uma crise — e a questão financeira está casada com a insatisfação popular. Por isso falei que a imagem da direita está se deteriorando. Tememos que ela venha a se esfacelar ”, explicou. “Queremos que a direita venha para ficar. Não só por um mandato, mas por vários. Nossa preocupação é de o governo não dar certo e de, com isso, ressuscitar a esquerda.”

Num anfiteatro de um hotel da cidade de São José dos Campos lotado com cerca de 200 pessoas, o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM), de 21 anos, estrela do MBL, fez um discurso em defesa de Bolsonaro. Disse que a militância virtual ainda era crucial para sustentar o poder do presidente diante de um Congresso “corrupto” e de uma “oposição violenta”. O público reagiu com entusiasmo, e Holiday foi ovacionado. O discurso de Holiday parecia exatamente o oposto do que Renan Santos, outro expoente do MBL, havia proferido minutos antes. Era tudo ensaiado. Holiday voltou ao palco para revelar que tudo que acabara de dizer era mentira. “O que vocês acabaram de presenciar foi o mais fácil dos populismos, a mais nojenta das demagogias. Que é aquela que convence milhares de pessoas, no caso aqui são centenas, de uma tese com apenas algumas poucas palavras vazias”, disse o vereador, acrescentando que o MBL tinha sido criado para fazer política pelas vias institucionais, numa clara oposição ao que defende parte dos apoiadores do presidente. Coube ao deputado federal Kim Kataguiri, que recebia tratamento de celebridade no local, as palavras finais. Ele defendeu que a “articulação” é necessária mesmo para negociar com “esquerdistas” como “PT, PSOL e PCdoB”. O estudante Lorenzo Pozzi, de 16 anos, saiu de Ilhabela, no litoral paulista, para encontrar os líderes do MBL, com quem tirou fotos. Fã de Kataguiri, Pozzi se disse um liberal convicto, um defensor de um Estado menor e do fim dos privilégios dos políticos corruptos. Depois da pegadinha de Holiday, Pozzi ficou confuso. “Continuo apoiando Bolsonaro. Acho o governo bom. Não entendi muito bem essas críticas contra o presidente”, disse o jovem.

Com informações Época


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