[OPINIÃO] Soberba, Boicote ou Traição? Por que o Governo Bolsonaro foi pego de surpresa pelos protestos da Educação?

Jair Bolsonaro. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
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Inegável o retumbante sucesso das manifestações contra os cortes na Educação na rede federal de ensino, abrangendo universidades, institutos federais e colégios federais. Houve uma imensa adesão. Milhares de estudantes, professores e pais de alunos ganharam as ruas do país, em mais de 250 cidades, exigindo mudanças no tratamento da já moribunda educação brasileira.

Porém, chama muito a atenção o tom pacifico das manifestações. Tirando um fato isolado após o fim da manifestação no Rio de Janeiro, os relatos foram de protestos pacíficos pelo país. E uma estranha coincidência: a presença pouco ostensiva das forças policiais nos protestos. Algo incomum, quando se lembra dos embates entre manifestantes e policias vindos desde os protestos de 2013.

Causou mais estranheza o negligente desdém com o qual o Governo Bolsonaro estava tratando as manifestações. Elas já estavam marcadas há mais de um mês. Notícias quanto a adesão de universidades, institutos e colégios federais, com adesão inclusive de colégios particulares, rodavam todo o país. Algo incomum, se considerarmos que, desde 2013, manifestações tem sido monitoradas de perto e com antecedência. Prática tanto do Governo petista com Dilma, quanto do mandato tampão do P MDB de Michel Temer.

O que levou a esse comportamento, que faz das manifestações um desastre para este Governo que já está com aprovação decadente? Governo este que vem sofrendo críticas inclusive de aliados que, cada vez mais, preferem se manter longe da figura do até então popular Bolsonaro, muitas vezes, inclusive, declarando independência em relação ao governo.

Três hipóteses podem ser apontadas, para desvendar esta questão e explicar o comportamento do Planalto:

A) SOBERBA: Bolsonaro e seu clã realmente subestimaram o potencial das manifestações e não se preocuparam em monitorar o movimento. Algo que surpreende, quando se observa nitidamente a falta de um projeto para a Educação brasileira, materializada pela escolha aleatória do ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo e com a escolha de um economista, Abraham Weintraub, para sucedê-lo. O que salta aos olhos nessa ausência de um projeto de gestão e metas para a educação, é que o radicalismo ideológico do Bolsonaro indicava uma ação forte justamente na área educacional. O que não ocorre e se limita a uma política atabalhoada de perseguição ideológica e de cortes orçamentários na área.

B) BOICOTE: Bolsonaro estava sem informações. O Governo Bolsonaro tem se notabilizado por agir baseado em monitoramento nas redes sociais. É sabido que a inteligência do Governo está nas mãos dos militares. Todavia, tem havido sucessivos embates dentro do governo entre uma ala ideológica ligada a Olavo de Carvalho e os militares. E isto tem desgastado a relação de Bolsonaro com seus generais ministros. As sucessivas acusações de que o Gen. Mourão, vice-presidente, estaria tramando derrubá-lo, vêm minguando a relação de confiança entre o presidente e seu vice. Portanto, não é de se duvidar que possa ter ocorrido uma deliberada falta de repasses de informação sobre o monitoramento das preparações dos protetos e seu potencial. Deixando Bolsonaro e seu núcleo político totalmente desguarnecido.

C) TRAIÇÃO: Havia informação, havia o monitoramento, mas faltou quem ajudasse o Governo. Governadores, como Doria em São Paulo e o ex-juiz Witzel do Rio de Janeiro, tem buscado sistematicamente se afastar da figura do antes popular presidente. Alguns, como o próprio Dória, embora demonstre um apoio tímido, busca se mostrar com uma alternativa ao próprio Bolsonaro, já mirando bolsonaristas decepcionados com o Governo, nas eleições presidenciais de 2022. Quando se pensa no abandono dos partidos do chamado Centrão ao Governo no Congresso, há de se imaginar que os Governadores possam fazer o mesmo, “lavando suas mãos”, deixando que as manifestações ocorram livremente, desgastando o Governo.

Métodos de repressão, alto contingente policial ou posicionamento estratégico de grupamentos  policiais e cavalaria em pontos chaves da cidade, simplesmente não foram implementados. O que explica, e muito, o tom pacífico generalizado das manifestações. Lembrando que tanto no governo Dilma, quanto no governo Temer, houveram fortes repressões à manifestantes, principalmente nos estados aliados aos Governos. Quem não lembra da truculenta polícia de Cabral e Pezão? A Agressão a professores do Governo Richa, no Paraná? A polícia contra estudantes em São Paulo do governo Alckmin?

A bem da verdade, o Governo Bolsonaro já não enfrenta, hoje, apenas movimentos abertamente declarados de oposição. Cresce a lista de adversários internos. Algo detectado já pelo seu núcleo político, mas de difícil trato.

A alta adesão popular a protestos nas ruas contra o Governo, acende o sinal amarelo em Brasília, que provavelmente não repetirá o mesmo erro quanto a subestimar seus adversários. Ou não.

Fernando Mendonça


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