Bolsonaro indica crítico da Lava Jato e fã de Che Guevara para Procurador Geral da República. Decisão desagrada Moro e eleitores.

Gostou? Compartilhe!

O presidente Jair Bolsonaro escolheu nesta quinta-feira (05) o nome de Augusto Aras para assumir o cargo de Procurador-Geral da República, chefe do Ministério Público Federal. Essa é a primeira vez desde 2003, que o presidente da República não escolhe alguém da lista tríplice dos mais votados pelo MPF.

O próximo chefe do Ministério Público Federal, o subprocurador da República Augusto Aras defendeu em entrevista no final de 2016 vários pontos que contrastam ou conflitam com os defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e pelo seu entorno mais ideológico.

O presidente Jair Bolsonaro usou a transmissão ao vivo semanal na internet, na noite desta quinta-feira, para se defender das críticas que começaram a surgir entre seus apoiadores, principalmente após ele oficializar a indicação do subprocuradorAugusto Aras para a Procuradoria-Geral da República. No vídeo, Bolsonaro chegou a pedir a quem votou nele para apagar os comentários negativos que fizeram na página dele no Facebook.

Segundo o subprocurador, a direita radical se aproveitava de uma crescente “doutrina do medo” para fazer valer a opressão contra os mais pobres e a supressão de direitos e garantias sociais.

Aras, que já se reuniu por cinco vezes com Bolsonaro nas últimas semanas, chegou a usar, sem citar o ex-presidente, o slogan da campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2002.

“Nós vivenciamos um momento difícil em que a sociedade brasileira, através da doutrina do medo, pede uma doutrina que reduz direitos sociais em troca de uma suposta segurança. Segurança essa que quem dá são os poderosos”, disse Aras.

“E nós não podemos ter uma sociedade estável, em desenvolvimento constante, em conformidade com suas próprias peculiaridades se nós não compreendermos que direitos e garantias fundamentais, direitos sociais por nós conquistados durante os últimos dois milênios, não podem ceder ao medo”, continuou.

“Agora, mais do que nunca, a esperança precisa vencer o medo, porque o medo está nos conduzindo a renunciar a todos os direitos sociais que nós conquistamos a duras penas”, afirmou o subprocurador no encerramento da entrevista ao programa “Câmara Comenta” , da TV Câmara de Salvador, em 2016.

CRÍTICAS À LAVA-JATO

Na entrevista dada em 2016, Aras criticou ainda a tortura e ditadores populistas que conquistaram o poder como “salvadores da pátria” ou “mitos”, que é como simpatizantes de Bolsonaro se referem ao presidente.

“Todas as ditaduras populistas que conhecemos, especialmente na primeira metade do século 20, resultaram da mitificação. O salvador da pátria, o salvador da nação, o salvador do povo. Então, Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, Lênin e Stálin na União Soviética, todos fizeram revoluções populistas, ditaduras populistas que em nada diferem dos efeitos de outras ditaduras não populistas.”

Aras também fez críticas à Operação Lava Jato e ao instituto da delação premiada —dois temas estritamente relacionados ao atual ministro da Justiça, Sergio Moro.

Aras criticou meios usados pela operação que tem em Moro seu principal nome.

“Se formos admitir na contemporaneidade essa máxima de Maquiavel [se refere à expressão de que os fins justificam os meios] nós temos que admitir que a tortura e o pau de arara e outros meios indignos de tratamento do ser humano, por mais culpado que ele seja, possa a vir a ser legítimo, o que não é verdade. De maneira que devemos ter certas preocupações. (…) Meios empregados que estão, muitos deles, começando a criar um regime de cerceamento das liberdades públicas”, afirmou.

Sobre as delações, um dos principais instrumentos usados pela Lava Jato, ele afirmou que em muitos casos elas serviram a interesses espúrios e ilegítimos.

“O importante é que o sistema de Justiça, o Ministério Público estejam atentos, porque muitas vezes, e nós sabemos de casos concretos, em que autoridades do Judiciário, autoridades do Ministério Público, autoridades policiais [não cita casos específicos] procuraram usar esses colaboradores processuais para atingir fins espúrios, ilícitos, imorais. Conseguiram determinadas delações para satisfação de caprichos próprios, para atingir adversários”, afirmou.

E acrescentou: “Evidente que sempre há interesse político porque a política é da nossa natureza. Eu não sou político partidário e muitos colegas que estão na Lava Jato certamente não são também. Mas não podemos afastar a possibilidade de que segmentos explorem a Lava Jato politicamente, partidariamente.”

Sergio Moro fez chegar a integrantes do governo que não vê com bons olhos a possível indicação de Augusto Aras, subprocurador-geral da República, ao comando do Ministério Público Federal. Segundo relatos, ele não enxerga no candidato a figura de um grande aliado da Lava Jato.


Augusto Aras cita Che Guevara: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”

“Em uma sessão, o então procurador, atual indicado como novo PGR de Bolsonaro, Augusto Aras cita Che Guevara: “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. Na verdade, é uma suposta frase de Che Guevara, já que não há comprovação de que o “pensador latino americano”, como se referiu Augusto Aras a Che Guevara, a teria realmente dito. Em espanhol, a suposta frase de Che citada por Aras completa seria: “Hay que endurecerse sin perder jamás la ternura”. Confira o vídeo:

Com informações Folha de São Paulo e Gazeta do Povo


Gostou? Compartilhe!