OPINIÃO: Potencialidades e perigos do ensino a distância

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Semana passada, foram divulgados os dados do Censo da Educação Superior e uma das notícias amplamente repercutidas na mídia foi o fato de que, pela primeira vez, o número de matrículas em cursos de graduação na modalidade a distância supera o das matrículas em cursos presenciais. Das estatísticas divulgadas, dois aspectos preocupam.

O primeiro deles é a discrepância nos resultados do Enade entre cursos presenciais e a distância. Dentre os cursos presenciais, 6,1% atingiram o conceito máximo, enquanto apenas 2,4% dos cursos EaD obtiveram o mesmo resultado de excelência. O segundo é a alta concentração das matrículas em pouquíssimas IES. Cinco universidades sozinhas detêm mais da metade das matrículas em EaD, sendo que duas delas, Pitágoras Unopar e Anhanguera, pertencem ao mesmo grupo empresarial, a Kroton. Com tal monopólio, essas instituições passam a ditar um padrão para o modelo de EaD brasileira, que obviamente não está atingindo os níveis de qualidade desejados.

Quando mal empregadas, as tecnologias educacionais são atomizantes: o estudante consome um conteúdo pré formatado, interage pouco e tem poucas oportunidades de desenvolver um pensamento aprofundado ou mesmo de se expressar. Por outro lado, elas têm o potencial de ser o oposto disso: de aproximar estudantes que estão geograficamente distantes e fomentar trocas enriquecedoras. É uma questão do modelo de educação e do desenho da experiência educacional que se propõe. O ensino a distância não pode ser pensado à parte do ensino presencial, da pesquisa ou da extensão.

Sob inspiração de Darcy Ribeiro, temos, desde 2002, no Rio de Janeiro, o Consórcio Cederj, que oferece graduação pública e gratuita em EaD e que, mais tarde, veio a servir de modelo para a criação da Universidade Aberta do Brasil. O Consórcio Cederj articula todas as IES federais e estaduais presentes no estado do Rio e, desde sua criação, já formou milhares de profissionais – principalmente professores da educação básica – no interior do estado. Alguns dos cursos do Consórcio se destacam por ter, no Enade, notas iguais ou superiores aos cursos oferecidos pela mesma universidade na modalidade presencial e por ter seus egressos sistematicamente aprovados e bem classificados nos concursos públicos municipais. Embora haja, sim, espaço para melhorias no desenho e na implementação dessa política, é inegável sua contribuição para a melhor qualificação dos profissionais nos municípios em que está inserida.

O Brasil é um país de dimensões continentais com enormes desigualdades econômicas e sociais. Tradicionalmente, as ofertas de ensino superior estavam basicamente restritas aos centros urbanos. Jovens do interior que almejassem continuar seus estudos para além do ensino médio precisavam se mudar para quilômetros de distância. Evidentemente, nem todos tinham condições de se sustentar financeiramente longe de suas famílias e, dos que tinham, poucos retornavam a seus municípios de origem após a conclusão dos estudos. Como resultado, as instituições de ensino superior (IES) acabavam por agravar, em vez de atenuar, as desigualdades regionais, atraindo e retendo nos centros urbanos a parcela mais escolarizada da população.

A EaD, como defendida por Darcy Ribeiro ainda nos anos 90, tem o potencial de reverter essa tendência: permitir que as populações de regiões rurais, de cidades pequenas e médias, e das periferias em todo o território nacional, tenham acesso ao ensino superior – e, também, a profissionais qualificados com ensino superior completo. Ressaltamos esse segundo ponto para levar a discussão sobre a democratização da educação superior para além de uma lógica do estudante-cliente-consumidor desse tipo de ensino. O acesso ao ensino superior é importante não apenas do ponto de vista do direito individual à educação, mas na perspectiva dos benefícios que ter uma população mais escolarizada traz para o desenvolvimento local, regional e nacional.

Além disso, tendo em vista os três pilares da universidade brasileira – ensino, pesquisa e extensão -, a inclusão de estudantes oriundos de todas as classes sociais e diferentes regiões traz ganhos para a instituição e para a sociedade. Tal integração é crucial, não apenas para a formação de profissionais – e possibilidade de ascensão social de estudantes individuais -, mas também para o enriquecimento de nossa produção científica – a partir de múltiplas experiências – e para a difusão do conhecimento e retorno para a população como um todo.

A educação tem uma missão dupla para com o estudante: formá-lo para a inserção no mercado de trabalho (inclusão necessária para garantir-lhe as condições materiais para uma vida segura e saudável) e para o exercício da cidadania (que requer a capacidade de reflexão sobre a realidade ao redor, em toda sua complexidade). Paralelamente, no plano coletivo, também precisamos de jovens bem formados nessas duas dimensões: capazes tanto de participar das atividades produtivas quanto de governar ou, ao menos, escolher e avaliar governantes.

Encerramos, então, reafirmando a potencialidade da modalidade EAD como instrumento de democratização do ensino superior e de desenvolvimento local, regional e nacional. Reiteramos que é preciso estar atento ao modelo educacional que se implementa para que tal potencial se cumpra. E, enquanto a desigualdade socioeconômica é um obstáculo a ser superado, afirmamos que as diversidades étnica, regional e cultural devem ser sempre encaradas como riqueza.

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Bruna Werneck Canabrava

Mestra em Ciência Política pela UFF e Técnica em Educação a Distância e Divulgação Científica na Fundação Cecierj.


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