Lula e Fernanda Montenegro – por João Medeiros

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O ex-presidente Lula deu uma entrevista ao Sakamoto, para o portal UOL hoje.

Dentre várias coisas que disse, destaco esse trecho:

“Assisti a um filme chamado ‘Central do Brasil’. Você já assistiu? Eu vi a Fernanda Montenegro tentando ajudar aquele menino. E aquele menino era nervoso, rebelde. Não queria ajuda da Fernanda Montenegro, e eu lembrei do Ciro. A Fernanda Montenegro, que escrevia a carta com muito cuidado e com muito carinho, conseguiu convencer o menino, levou o menino até a família e depois foi embora. Eu gostaria que o Ciro permitisse que eu fosse a Fernanda Montenegro dele”, disse o petista. “Sabe, que eu pudesse contribuir com o compartilhamento da convivência dele com as outras forças políticas. Ele não pode continuar atacando todo mundo. Ele, por exemplo, disse ontem que estou aqui numa suíte. Ele poderia vir para meu lugar um pouco.”

Lula segue:

“Quando Deus fez o ser humano, ele fez a cabeça feita para a gente pensar, para ter juízo no que a gente fala. Então não pode achar que pode ofender todo mundo. Se quiser ter futuro político neste país, terá que tratar pessoas de outro jeito. Ser mais cordato. Ser mais amável, ser mais carinhoso. Ele é uma pessoa do coração bom. Eu já vi o Ciro chorar algumas vezes.”

Eu entendi a mensagem subliminar que Lula tentou transmitir ao se comparar à Dora, personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil, a que ele se refere. O
filme é lindo, de fato, e narra a saga de uma mulher solteira de meia-idade jornadeando pelo sertão nordestino com um menino desconhecido a tiracolo. Ela tem a intenção de
entregar o menino à sua família.

Mas me parece que o que inspirou a comparação foi o fato de que Dora, personagem que ele pretende encarnar, dando ao Ciro o papel de Josué, o menino “nervoso e
rebelde”, traiu a confiança de Josué, logo no início do filme, ao entregá-lo aos abutres do tráfico de órgãos, assim que o menino ficou órfão.

Dora foi oportunista e manipulou a boa-fé daquele menino rebelde e sabe disso.

Depois, consumida por remorso, Dora resgata o menino do cativeiro onde o deixou e o conduz à segurança de sua família no sertão nordestino, numa jornada épica.

Lula sabe que Ciro não precisa de sua companhia condescendente. Não se esnoba apoios, óbvio; na política não existe soberba. Contudo, a forma condescendente com que Lula trata o assunto revela muito mais acerca de sua visão egocêntrica de mundo do que da necessidade do Ciro ser ciceroneado, digamos assim.

Mas Lula precisa desesperadamente aplacar o remorso que o consome por ter traído Ciro, seu aliado fiel por anos. E não foi uma traição. Foram várias.

Ciro tem de fato um coração generoso, posso testemunhar isso. Lula está certo nesseponto.

A única maneira de se redimir das muitas promessas não cumpridas – Lula promete demais pra muita gente – seria pedir desculpas de forma sincera. Reconhecer seus erros e a forma vil e traiçoeira com que tratou Ciro desde 2010, ocasião da primeira facada nas costas.

Ao fazê-lo, Lula vai descobrir que o coração de Ciro é ainda maior do que supõe. E, ainda assim, não tem espaço pra mágoas.


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