Empresas listadas na bolsa de SP perdem R$ 290 bilhões em valor de mercado

Mercado Financeiro em queda
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No primeiro dia de negócios depois do carnaval, temor provocado pelo coronavírus leva a B3 a sofrer o maior tombo em quase três anos, provocando perda de R$ 290 bilhões no valor das empresas listadas. Moeda norte-americana dispara.

Com dois dias e meio de atraso, o mercado brasileiro, fechado desde a sexta-feira até as 13h desta quarta-feira (26/2) por conta do feriado de carnaval, sentiu o baque do avanço do coronavírus fora da China. A Bolsa de Valores de São Paulo (B3) abriu em queda forte e o principal índice de lucratividade, o Ibovespa, fechou com desvalorização de 7%, aos 105.718 pontos. O dólar subiu 1,12%, cotado em R$ 4,44, renovando o recorde histórico. Segundo estudo elaborado por Einar Rivero, da empresa de informações financeiras Economatica, as empresas listadas na B3 perderam, em um dia, R$ 290,2 bilhões em valor de mercado.

A B3 teve o pior pregão desde 18 de maio de 2017, quando houve desvalorização de 8,8% devido à crise política gerada pelo vazamento de conversa entre o empresário Joesley Batista, da JBS, e o ex-presidente Michel Temer. A queda desta quarta-feira (26/2) consumiu todo o movimento de alta que a bolsa vinha registrando desde o fim do ano passado. “Voltamos ao patamar de 19 de novembro. Naquele dia, fechamos a 105.864 pontos. Depois, subimos mais de 13 mil pontos em menos de dois meses. Era um momento de forte expectativa por conta do excesso de euforia e da migração do capital da renda fixa para a renda variável. Todo esse movimento de alta foi engolido pelo coronavírus”, avaliou o analista da Rico Investimentos Thiago Salomão.

Apesar de a desvalorização já ser esperada pelos especialistas, a perda de 7% foi um pouco além do estimado. Para Vitor Hugo Fonseca, economista da G2 Investimentos, o que estava precificado era um recuo de 5%. “Como ficamos dois dias e meio sem pregão, havia uma defasagem que o mercado tinha que cobrir para ajustar os preços. Mas a queda foi maior do que a prevista”, afirmou. Fonseca disse que ainda não se sabe como a epidemia vai afetar a economia real, mas teme pelo pior: “Achava-se que ia reduzir o crescimento global só no primeiro trimestre, agora, se considera um estrago para o ano todo.”

Mais afetadas

As ações das companhias aéreas, principais afetadas pelo cancelamento de voos, foram as mais afetadas. Os papéis da Gol despencaram 14,67% e os da Azul caíram 13,17%. Ativos mais negociados da B3, os papéis preferenciais da Petrobras recuaram 10%, e os ordinários, 9,95%. A estatal perdeu, em um dia, R$ 39,2 bilhões em valor de mercado, segundo a Economatica. As ações da Vale sentiram o tombo, sobretudo, depois de um navio da empresa encalhar com milhares de toneladas de minério de ferro na costa do Maranhão. Os papéis da mineradora caíram 9,54% e a companhia se desvalorizou R$ 24,5 bilhões. Os principais bancos brasileiros também perderam bilhões em valor de mercado: o Bradesco encolheu R$ 15,5 bilhões, o Itaú, R$ 13,7 bilhões, e o Banco do Brasil, R$ 11,3 bilhões.

Não é possível prever o que virá no resto da semana, mas, conforme José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, os mercados devem se acalmar. “Esse ajuste era esperado, seguindo as bolsas de fora, que hoje (esta quarta-feira — 26/2) reduziram as perdas, algumas andando de lado”, disse. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones 30 caiu 0,46%, mas o Nasdaq avançou 0,17%. Na Europa, a bolsa de Londres subiu 0,35%, a de Paris, 0,09% e a de Milão, 1,44%. A de Frankfurt recuou 0,12%.

Na opinião de Pedro Galdi, analista de investimento da Mirae Asset, o coronavírus vai impor volatilidade global por mais alguns dias. Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas Asset, também não arrisca cravar que a Bolsa vai parar de cair. “O coronavírus é uma coisa sobre a qual ninguém tem controle, por enquanto. O mercado antecipa coisas mais previsíveis. Nesse caso, estamos no meio do furacão, sem qualquer capacidade de previsão”, disse.

Pânico

O que o mercado precifica é como a epidemia vai afetar a economia real, assinalou William Teixeira, head de renda variável da Messem Investimentos. “Temos uma fábrica da Samsung fechada na Coreia do Sul”, destacou. Nesta quarta-feira (26/2), a Microsoft afirmou, em comunicado, que precisou atualizar sua expectativa para o resultado de terceiro trimestre fiscal de 2020. A justificativa é a demora acima do normal nas operações de suprimento. Apesar do pânico inicial, para Teixeira, o efeito do coronavírus será limitado. “Daqui a pouco terá vacina. A primeira indústria farmacêutica que descobrir vai ganhar muito dinheiro. Uma empresa norte-americana anunciou que estava iniciando pesquisas e suas ações subiram 15%”, exemplificou.

Davi Lelis, assessor de investimentos da Valor, lembra que a Bolsa brasileira teve fuga de investidores estrangeiros, mas muita entrada de brasileiros. “O país passou por um amadurecimento financeiro, com a entrada de novos investidores. Muitos são marinheiros de primeira viagem e podem ficar nervosos. Mas, se compraram para longo prazo, não é hora de sair”, alertou. “Quem está passando mal com as desvalorizações deve reavaliar o perfil e ir para fundos com menos volatilidade”, recomendou.

Sidnei Nehme, diretor executivo da NGO, explicou que a subida recente da Bolsa estava ancorada na pessoa física, que, com a queda dos juros, se deslocou da renda fixa para a variável. “Esse investidor é extremamente sensível ao risco e sai correndo na primeira perda”, disse.

Lelis, no entanto, lembrou que muitos gestores ainda apostam em um Ibovespa em 130 mil a 140 mil pontos a médio prazo. “Tem quem queira aproveitar os preços baixos”, disse. Foi o que fez o Berkshire Hathaway, do megainvestidor Warren Buffet, que praticamente triplicou a fatia que detinha do IRB Brasil Re, comprovando que investidores gostam de entrar em momentos de baixa, como o atual.

BC intervém para segurar câmbio

O dólar acompanhou o movimento de aversão ao risco que derrubou as bolsas de valores de todo o mundo e voltou a subir no Brasil nesta quarta-feira (26/2). A moeda, que já havia passado o carnaval aos R$ 4,41, fechou o dia cotada a R$ 4,44 — o maior valor nominal desde a criação do Plano Real. E só não subiu mais porque o Banco Central (BC) decidiu intervir no mercado.

O Banco Central agiu para conter uma oscilação mais brusca da moeda norte-americana antes mesmo de a Bolsa de Valores de São Paulo abrir, ofertando 10 mil contratos de swap cambial, que equivalem à venda futura de dólares. A manobra ajudou a manter o dólar perto dos R$ 4,43 durante boa parte do dia. No fechamento, a moeda norte-americana cravou alta de 1,1%.

“Foi um movimento até modesto diante da queda da Bolsa e da alta dos juros. Poderia ter sido bem maior, não fosse o BC”, afirmou Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, indicando que o dólar deve continuar em alta hoje por conta do temor global com o coronavírus. O BC avisou que vai fazer um novo leilão extraordinário de swaps cambiais hoje pela manhã. E a oferta pode chegar ao dobro da desta quarta-feira (26/2): até 20 mil contratos.

“O BC anunciou leilões para atenuar a subida do dólar. Mesmo assim, a moeda deve engatar uma nova alta nesta quinta-feira. Afinal, o governo criou um ambiente favorável para o especulador e para o câmbio elevado. E, agora, existe um componente a mais nesse sentido”, disse o diretor executivo da NGO, Sidnei Moura Nehme.

Polêmicas

Ele explicou que a alta do dólar, que começou o ano cotado a R$ 4,01 e, desde então, subiu mais de 9%, teve início depois que o governo indicou que o novo cenário macroeconômico seria de juros baixos e câmbio alto. E se agravou com as polêmicas geradas por declarações como as do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que era bom manter o dólar caro para acabar com a festa das empregadas domésticas na Disney. Agora, a moeda reflete o cenário externo de aversão ao risco gerado pela epidemia do coronavírus. “É um fator novo que vai exacerbar essa alta e pode levar o dólar para R$ 4,50, valor que começaria a ameaçar a inflação baixa”, afirmou Nehme.

Head de renda variável da Messem Investimentos, William Teixeira explicou que, em momentos de incerteza, os investidores preferem depositar o dinheiro em títulos estáveis, como os do governo dos Estados Unidos. Com isso, há uma saída de dólares de economias emergentes, valorizando o dólar e depreciando moedas como o real. “Nessa hora, o investidor prefere voltar para o título norte-americano, que ainda tem um juro positivo, ainda que baixo. Em outros países seguros, como Alemanha ou Japão, os juros estão zerados ou negativos”, explicou.

Com informações Correio Braziliense 


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