QUEDA DOS JUROS: MAIS UM MITO

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Durante muitos anos o Brasil esteve pagando taxas altíssimas de juros sobre sua dívida pública, sob o argumento de que seria uma forma de atrair capital, já que as chamadas Economias Avançadas, que são teoricamente menos expostas ao risco de crédito, remuneram de forma menos agressiva seus títulos de dívida pública. Nesse contexto, um nome fica sempre em evidência quando o assunto é taxa de juros brasileira: SELIC, ou Taxa SELIC. Os jornais para o grande público, e mesmo publicações semi especializadas trazem a definição dessa tal SELIC como sendo “a taxa básica da economia brasileira” – o que pode até ser uma meia verdade, mas que, por consequência, também é uma “meia mentira”.

SELIC é uma sigla, uma abreviação, de “Sistema Eletrônico de Liquidação e Custódia”, então, o leitor deve se perguntar: “O que isso tem a ver com taxa de juros?” E sim, essa é uma boa pergunta porque o Sistema Eletrônico de Liquidação e Custódia (SELIC) foi desenvolvido para dar maior segurança, transparência e celeridade no processos de compra e venda de títulos públicos, sendo este uma “câmara de compensação” onde são direcionados os valores e os títulos para cada comprador ou vendedor, em um espaço de tempo muito rápido e com a segurança necessária para que a transação não gere prejuízos para nenhuma das partes. Contudo, como ano passado o então candidato Ciro Gomes fazia questão de nos atentar: após o advento do Plano Real, em linhas grosseiras, o Brasil trocou inflação por juros.

A ciranda financeira dos famigerados “Over Night” deram lugar a uma, na época chamada “Taxa Básica Financeira” (TBF), e essa era atualizada quase que diariamente. Apenas no decorrer da transição para o século XXI, essa taxa foi substituída pela “Taxa Referencial SELIC – META” – que, conforme diz o nome, não é uma taxa praticada de fato, mas um índice a ser atingido, uma meta. Meta essa que historicamente no Brasil, é atingida é quase imediatamente na alta e tem um pequeno atraso na queda.

Essa SELIC-Meta é definida em 6 reuniões anuais ordinárias, ou seja, pré programadas, do Comitê de Política Econômica (COPOM) e divulgadas imediatamente junto ao relatório deste órgão. Mas podemos afirmar sem chance de erro que a influência desse índice apenas se dá de maneira direta num único indicador real de juros na Economia: a taxa DI – taxa de Depósito Interbancário – utilizada para remunerar os créditos que os bancos pegam uns com os outros, diariamente, para honrar seus comprimidos diários.

Essa Taxa DI é a referência para o juros que o banco paga também ao seu credor não bancário, seja esse uma pessoa física ou jurídica, em operações pós fixadas – ou seja, com juros definidos após a operação, calculados sobre um índice, nesse caso, o DI.

Pra ficarmos no exemplo mais concreto da influência da SELIC nas operações bancárias de varejo, ou seja, aquelas que circulam no universo das pessoas reais, vamos lembrar que os CDBs e LCIs que os bancos ofertam a seus clientes/investidores tradicionais são operações pós fixadas atreladas ao CDI – que, por sua vez, sofre influência direta da Taxa SELIC. Também a nossa velha conhecida, a poupança, tem sua correção atualizada pela SELIC-meta para depósitos posteriores a abril de 2012, desde que a SELIC-meta esteja abaixo de 8,5% ao ano, nesse caso, a remuneração das poupanças é, por lei, 80% da SELIC mais a correção da TR – que por questões óbvias que não abordaremos aqui, se mantém zerada em tempos de SELIC baixa.

Cabe também explicar que Banco, por definição e legislação, não empresta dinheiro próprio, mas faz um serviço de intermediação financeira entre agentes superavitários e agentes deficitários, em outras palavras, “guarda” o dinheiro de quem tem alguma sobra, e o remunera por isso, para emprestar esse mesmo dinheiro a quem precisa de um dinheiro para algum motivo específico ou não. Grosso modo, banco pega o dinheiro emprestado de quem tem e empresta pra quem não tem, cobrando uma taxa de juros maior do que paga.

Aí entra a questão do CDI

Após essa longa, porém necessária introdução, vamos analisar o cenário atual e juros e sei histórico, para, só então pensarmos as prováveis consequências do modelo de redução de SELIC-meta dentro do contexto atual.

Fundos de investimento em ativos de risco cobram tarifas de administração mais altas porque, em tese, teriam mais trabalho para administrar as carteiras mais voláteis

É um conjunto. Baixar a Selic e desvalorizar o real seriam duas medidas importantes pra reaquecer a economia, se fosse parte de um projeto de fortalecimento do setor de energia, acompanhado de um ciclo de obras de investimento em infraestrutura, primeiramente rodoviária e portuária, com uma retomada do transporte ferroviário. Fazendo de fato a riqueza entrar via balança comercial e circular com custo menor.

Mas nesse cenário, só tende a dar um resultado curto, mais por causa da confluência “FGTS+13°” que tende a fazer uma fogueira nessa geladeira, mas sem investimento estatal na base da Economia Real, são só dois agrados para setores específicos: Real baixo pro agronegócio exportador e Selic baixa pra forçar migração de Capital da renda fixa para o Mercado, pra tapar o rombo da saída de grana dos gringo.

Aliás, saída de capital estrangeiro é um sinal preocupante, principalmente por tratar-se de um governo que tenta ser “pró mercado”.

Essa Queda do valor do Real vai puxar a inflação pra cima, e a SELIC não tem a menor influência nesse caso. Mas estando baixa, atrapalha no investimento em infraestrutura, porque os recursos usados pra financiar investimento em infraestrutura são da poupança, que está sendo depredada nessa queda de juros. Se esse recurso for migrado para o Mercado de ações, vira só grana pra engordar a jogatina, porque não vai pra produção de nada. O único Capital que vai para a empresa que detém o título é no chamado “IPO”, ou na oferta inicial de ações pela própria empresa, depois disso, é só especulação. E os recursos de Poupança, LCI, LCA e CDBs são usados em linhas de crédito. Se o lado “credor” seguir migrando os recursos para ações e títulos no mercado, os bancos seguram a oferta de crédito por falta de “funding”. Então, vão passar a lucrar com tarifas de administração e operações de tesouraria. Baixo risco e alto retorno.

Então, nesse cenário, como a remuneração de ativos que são direcionados para o crédito está num momento “desestimulante”, e quem tem algum dinheiro guardado está se vendo que que obrigado a migrar seus recursos para o mercado de “renda variável”, ou seja, a bolsa de valores, em breve teremos taxas de juros baixas para o crédito, mas um crédito extremamente
restrito. Porque haverá uma taxa reduzida, mas poucos recursos disponíveis, então, só os clientes com bom Histórico de crédito (olha o cadastro positivo aí) e apresentando alguma garantia, terão acesso ao crédito mais barato. Para o resto, financeiras picaretas e toda a sorte de agiotagem estão aí há décadas.

Outro pequeno grande detalhe sobre essa queda dos juros:

Querem nos fazer acreditar que os investidores tradicionais de títulos públicos (os nossos queridos rentistas) vão parar de comprar papéis do tesouro, ou se submeter a esses cenário de pouco ganho. Balela!! O tesouro tem produto pros nossos queridos rentistas sim. Tem operação compromissada, títulos pré fixados e a cereja do bolo: swap Cambial.

Com a Selic baixa e o dólar nas alturas, está liquidando os títulos com o referencial do câmbio e a rentistada tá rindo a toa. Enquanto isso, o trabalhador que consegue guardar uma merreca de sua rescisão ou FGTS, ou aceita a taxa baixa de poupança ou vai correr risco na bolsa.
Viu como não dá pra esperar coisa boa vinda de gente ruim

Autor do Texto – Josh de Castillo


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