BRUNA WERNECK: AS NEGAÇÕES NA PANDEMIA

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Em tempos de pandemia, são muitas as negações.

Há quem negue a gravidade da situação, se recusando a respeitar o isolamento social. Há quem negue o grau de impacto que esse isolamento causa.

O secretário estadual de educação, Pedro Fernandes, nega a realidade brasileira ao propor que no dia 30/03 “voltem as aulas” na modalidade a distância. Quer parecer antenado e moderno, citando escolas de elite para convencer que a simples adoção de uma plataforma online específica garante qualidade na entrega.

Só que ferramenta é só isso mesmo: ferramenta. A qualidade depende sobretudo de quem a opera e das condições que a pessoa tem para operá-la. Por melhor que seja o cozinheiro ou seu fogão, não se faz uma feijoada sem tempero e em 5 minutos.

A secretaria estadual de educação não tem nem os emails de seus alunos. Não faz ideia de quantos deles têm acesso à internet de casa. Não sabe de que dispositivos acessariam o conteúdo (computador? celular?).

Qual o formato da aula? Tudo em texto? Quantos alunos têm deficiências de leitura? Vídeos que gastam ainda mais banda de internet? Pedro Fernandes menciona também material impresso: que material é esse? Como se dará a distribuição? Como os alunos podem tirar dúvidas? Lembrando que a taxa de analfabetismo funcional no Brasil chega a 30%, quantos pais têm condições de ajudar os filhos, ainda mais com conteúdos de ensino médio que é a maioria da rede estadual? Quantos desses pais estão em condições psicológicas de ajudar seus filhos?

Muitos dos adultos e mesmo dos adolescentes estão ansiosos, preocupados com os efeitos econômicos dessa crise.

Tenho plena confiança na qualidade dos professores concursados da nossa rede. Mas como cobrar deles que estejam prontos para uma forma completamente diferente de ensinar, sem nenhum dos recursos com que estão acostumados? Cabem aqui algumas das mesmas perguntas que fizemos sobre os alunos: como é seu acesso à internet? Que dispositivo utilizam para a conexão? Que tipo de apoio e que recursos terão à sua disposição?

EAD não é gambiarra. Um bom curso em EAD requer planejamento, cuidado na produção, estratégias para engajar o aluno e, sobretudo, que tanto professor quanto alunos tenham acesso! Isso é projeto de longo prazo.

Para hoje, o que vale a pena é investir na construção/consolidação de uma comunidade escolar mesmo a distância. Que se busque formar grupos virtuais de apoio mútuo entre profissionais da educação, pais e estudantes. Nas conversas, irem trocando informações sobre cuidados com a saúde (física e mental); ideias e estratégias sobre como ocupar o tempo em isolamento, estimular a curiosidade, praticar a concentração e coisas desse tipo.

É hora de abandonar ilusões e repensar as prioridades para reinventar a rotina, já que ninguém sabe por quanto tempo durará esta situação.

*Bruna Werneck é cientista política, mestre pela Universidade Federal Fluminense


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