Quem teve a brilhante a ideia de usar o termo Fascismo para atacar seus adversários políticos ?

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Sua família NÃO é fascista: Quem teve a brilhante a ideia de usar o termo fascismo para atacar seus adversários políticos ?

Este texto não tem intuito de ensinar o que é o Fascismo e explicar o contexto histórico em torno dessa ideologia, mas sim, analisar o uso que tem sido feito no Brasil e no mundo contemporâneo. Em plena vigência da Disneylândia neoliberal tupiniquim, de onde surgiu a moda de chamar adversários políticos de “fascistas”?

Essa história nos remete aos meados dos anos 2000 no Rio Grande do Sul, quando no calor do segundo turno das eleições municipais entre Tarso Genro, pelo PT, e Alceu Collares, pelo PDT, Dilma Vana Rousseff, que recentemente havia alterado sua filiação partidária, subiu ao palanque de seus antigos rivais petistas e fez o seguinte discurso:


Nós Militantes e Dirigentes Políticos Trabalhistas desfiliados do PDT, nos recusamos ao alinhamento do partido a direita, nos rebelamos contra o rompimento da aliança com a frente popular do Rio Grande do Sul e denunciamos o caráter FASCISTA da campanha de Collares em Porto Alegre.

Abaixo o registro da abertura da Caixa de Pandora

Naquele momento, o PDT gaúcho decidiu buscar alianças com PMDB para fazer frente a campanha petista. Algo comum no segundo turno de eleição para cargos no executivo. Dilma que era fundadora no Rio Grande do Sul e fazia parte do governo municipal de Olívio Dutra em Porto Alegre, preferiu sair do PDT e levar parte do partido para apoiar a campanha do petista Tarso Genro. Esse movimento rachou o PDT gaúcho e foi considerado uma punhalada nas costas de Leonel de Moura Brizola, que havia aberto as portas do partido para Dilma e seu então companheiro Carlos Araújo. Os Petistas acabaram vencendo aquelas eleições com 60% dos votos, consolidando uma hegemonia na ocupação de cargos na prefeitura e no governo estadual, viabilidade para candidaturas dos ex-pedestistas pelo PT e, sobretudo, a chave do cofre do Banrisul, banco público estadual que há algumas décadas passa por uma privatização oblíqua, conduzidas por mandatários dos variados espectros políticos.

Esta situação pouco ortodoxa de saída do partido em meio a uma corrida eleitoral para se unir com seus antigos adversários e obter vantagens pessoais sempre foi uma marca do modus operandi político de Dilma Rousseff, historicamente acusada traição por seus aliados desde a luta armada. Naquela ocasião, desmontou o PDT por dentro à serviço de Tarso Genro e passou a chamar as pessoas que outrora lhe abriram as portas de, FASCISTAS, de cima do palanque adversário. Lembrou-nos o comportamento de uma criança mimada que foi expulsa da sala de aula e passou a xingar a professora

Tamanha é a gravidade da situação, que Dilma chamou o PMDB de “fascista”, ignorando que se trata de um partido que abrange várias correntes políticas desde sua criação, que exerceu papel fundamental para restabelecimento da democracia no país e posteriormente formou a base de seu governo.

Este foi um momento crucial de ataque ao trabalhismo na história da política gaúcha, com a derrocada do PDT e ascensão do petismo lulista, que afastou quadros históricos do partido. Alceu Collares era então o principal nome pedetista no Rio Grande do Sul, tendo sido o primeiro negro a ser prefeito da capital e governador do estado, e conseguido a façanha de alcançar o recorde histórico de crescimento do PIB estadual, com 6,4%, reduzindo drasticamente os índices de desemprego. Hoje sabemos que a acusação leviana aos opositores políticos de “fascistas” ao que tudo indica encobre a sabotagem ao projeto de desenvolvimento nacional, muitas vezes orquestrado de fora pra dentro do país.

O PDT ainda hoje se depara com essa situação dos políticos, como é o caso da deputada Tabata Amaral. Ela desembarcou em São Paulo vinda da universidade de Harvard,com um diploma em astrofísica,e foi eleita deputada federal com uma retórica feminista, mas logo mostrou a defesa dos interesses de seus financiadores, como o empresário Jorge Paulo Lehman, o homem mais rico do país, e o movimento Renova BR. Em julho de 2019, a parlamentar ignorou a diretriz de seu partido, contrária a reforma da previdência, a votou favoravelmente a proposta de Bolsonaro e Paulo Guedes para a classe trabalhadora do país, rompendo com a tradição histórica do partido. Tabata ainda não acusou o partido de ser fascista, mas obviamente acusa seus detratores de machistas. Bom, Tabata Amaral e a bancada da esquerda neoliberal e identitária do PSOL acreditam que Juan Guaidó é o presidente da Venezuela e seguem esvaziando o conteúdo do termo fascismo como um lugar-comum da falsa oposição ao bolsonarismo, servindo sobretudo para legitimá-lo.

Na medida em que a política neoliberal dos governos tucanos conduzidos por Fernando Henrique Cardoso conduziram o Brasil à agonia da miséria e da fome, o PT ganhou espaço em segmentos sociais que se sentiam lesados pelo “príncipe da sociologia”. FHC havia trazido ao Brasil a partir de 1969, por meio do CEBRAP e com financiamento da Fundação Ford, os princípios da “nova esquerda”, instalando o neoliberalismo como política econômica, atrelado ao FMI e ao Banco Mundial, e os movimentos de raça, gênero e sexo como modelo social.

O governo do Lula, um ex-torneiro mecânico, deu início a um período de conciliação com os setores financeiro e produtivo, trazendo como fiadores o empresário do setor industrial José de Alencar e o presidente do BankBoston no Brasil, Henrique Meirelles. Desta maneira, o lulopetismo deu continuidade ao modelo neoliberal consolidado por seu antecessor, contudo, conferindo a tal projeto econômico uma “face humana ” por meio de medidas de “inclusão social” revertidas em uma retórica populista sectária de defesa de minorias discriminadas por questões de raça, gênero e sexualidade.

O fracasso econômico do modelo acadêmico paulistocêntrico conduzido por FHC, facilitou a retórica lulopetista de que todo o neoliberalismo havia sido abandonado com a saída dos tucanos do poder. Desta forma, a evocação retórica do fascismo para se referir aos desafetos políticos permaneceu incubado enquanto era explorado o falso milagre econômicos do ciclo das commodities e do suposto surgimento de uma “nova classe média”, encobrindo a cartelização dos bancos, a internalização da dívida pública à juros altos, a primarização da economia, a desindustrialização, o aumento da violência no campo, o crescimento do crime organizado e o encarceramento massivo da população pobre.

A traição aos políticos trabalhistas acusando-os de serem “fascistas” permitiu a Dilma Rousseff uma rápida ascensão no governo petista, internalizando os métodos de perseguição interna à desafetos políticos, o que marcou sua gestão à frente do Ministério de Minas e Energia e as Casa Civil da Presidência da República. Esta credenciais lhe habilitaram à sucessão de Lula, que já enfrentava perseguição do poder judiciário em função do sistema de compra de apoio parlamentar, operado em seu governo assim como no anterior, que ficou conhecido como mensalão.

O primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff é reconhecido por muitos atores políticos como o pior desde a fundação da República, restringindo-se a maquiar o esgotamento do modelo econômico com políticas identitárias e ataques a desafetos políticos dentro da própria esquerda, como na criação do slogan “esquerdomacho”. O espírito autoritário, punitivista e inquisitorial que marcou o governo Dilma, investindo em rupturas radicais nas fissuras sociais brasileiras produziram uma nova mentalidade ditatorial, inflada com pautas difusas anti-corrupção a partir de campanhas realizadas por meio de redes sociais, como o então recém-chegado ao Brasil Facebook Inc. O efeito dessa prática política foi o brasileiro que cobra “hospitais padrão Fifa”, sonega impostos, viaja à Miami, não sabe o significado de trade-off, mas utiliza a expressão: “Não existe almoço grátis”. O governo Bolsonaro é a fatura desse projeto político.

A política de inclusão social pelo consumo e pelo punitivismo identitário estava completamente esgotada ao final do mandato da presidente Dilma Rousseff, que investiu na radicalização da polarização política nas eleições de 2014 contra o tucano Aécio Neves, produzindo a campanha mais cara da história do país. Vencido o sufrágio, ainda em dezembro daquele mesmo ano e antes da transição, a sucessora de Lula passou a implementar as políticas de austeridade do plano de governo de seu opositor derrotado nas urnas, nomeando o economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.

O segundo mandato de Dilma deu continuidade na sequência de medidas desastrosas, incapaz de lidar com a pressão do judiciário vinda pela Lava Jato e parlamentar, com o pedido de impeachment. A falência econômica e a inevitável prisão de Lula com base na Lei das Organizações Criminosas, criada por Dilma e seu Ministro da Justiça e advogado político, José Eduardo Cardoso. Com o destino político do PT traçado e grande parte de seus dirigentes presos, Dilma conseguiu passar juridicamente ilesa e manter os seus direitos políticos ao capitular o cargo de Presidente da República e transferi-lo para o seu fiador político, Michel Temer, do partido outrora chamado por ela mesmo de “fascista”, o PMDB.

Apesar do absoluto fracasso econômico e social na qual o dilmismo e o lulopetismo meteram o país e, por consequência, a esquerda e os setores progressistas da sociedade, a ficha de sua militância insiste em não cair, uma vez que seguem induzidos ao negacionismo e ao erro de análise em função da explícita manipulação da opinião pública por meio de seus portais digitais de comunicação. Aparentemente, os petistas seguem presos a um período entre 2006, no auge do lulismo, até 2016, com a falência do modelo petista no governo Dilma. As eleições de 2018, com a falsa candidatura de Lula e a corrida natimorta da dupla Haddad/Manu, o petismo abriu mão de buscar alternativas ao país em favor de manter sua hegemonia na esquerda brasileira, legitimando um processo eleitoral do qual tomou parte e fez a maior bancada do Congresso Nacional, alegando tratar-se de uma fraude. Ora, como um partido toma parte de um processo sobre o qual sustenta uma narrativa de que se trate de fraude?

Infelizmente, o negacionismo petista e sua recusa às críticas impede um trato honesto com a realidade e a fuga da discussão quanto ao projeto de país.

O negacionismo petista chega ser exótico, à despeito de todos os avisos, como aquele dado por Mano Brown, no palanque da campanha, dias antes da votação no segundo turno, quando sentenciou:

Se, em algum momento, a comunicação do pessoal daqui falhou, vai pagar o preço. Porque a comunicação é alma. Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo, certo? (…)

 

Eu tô vendo casais se separando, amigos de trinta e cinco anos deixando de se falar… Tenho amigos… Se eu puder falar vai ser bom, também. Ou vou parar, também, e já era e foda-se. Certo ? Tenho amigos que eu não tenho mais como olhar no rosto deles por causa de política. Certo ? Não vim aqui para ganhar voto. Porque eu acho que já tá decidido. Agora, se falhou, vai pagar.

Mano Brown não aparece no vídeo após o comício gravado no apartamento de Paula Lavigne, em Ipanema, na qual “todxs” dançam e cantam animados ao som da viola de Chico Buarque para o petitcomitè. Obviamente, os Blogs e a militância petista até hoje sustentam a crença de que perderam as eleições em função da fala de Mano Brown, da viagem de Ciro à Paris, dos disparos de “mamadeira de piroca” por Whatsapp, pelo alerta aos “babacas” de que Lula estava preso e não concorreria à eleição feito por Cid Gomes. Todos eles, em um momento ou outro, acabaram sendo chamados de “fascistas” pelos petistas. Assim, a facilidade com que todos os supostos “avanços” conquistados pelo neoliberalismo inclusivo e com face humana do petismo foram demolidos, revelando a sua face real, tornando explícita a ausência de qualquer projeto estrutural de nação ao longo de seu governo, restando à sua militância o negacionismo e a hipocrisia, e demandando a criação de um novo espantalho político, ao qual maldosamente chamam de “fascismo”.

Apesar da postura por vezes ambígua e conivente com este rumo discursivo, Ciro Gomes alertou que não há coerência em se chamar 60% da população do Estado de São Paulo de “fascista” porque deram votos para Bolsonaro ao invés de Haddad em 2018. A razão disso deveria ser uma obviedade, uma vez que se tratam dos mesmos eleitores que outorra votaram em Lula, Dilma, FHC e, possivelmente, Tábata do Amaral. Contudo, Ciro Gomes, o “velho professor de direito”, utilizou a oportunidade para chamar o governo do Bolsonaro de fascista. Talvez seja o momento de tratar com mais seriedade sobre o fenômeno que levou o país ao governo Bolsonaro e a uma cizânia quase irreconciliável de nossa sociedade, com a ruptura das relações pessoais imediatas, como família e amigos. Não é hora de fazer média com uma neo-esquerda identitária, pós-moderna, deslumbrada, autoritária e negacionista dos fatos, sob o risco do ex-deputado, governador do Ceará, prefeito da capital, tornar-se o “velho professor de direito de Schrödinger”. Os adjetivos para qualificar o projeto bolsonarista são abundantes, como entreguista, neoliberal, autoritário, despreparado, entre outros, e todos eles seguem na contramão do neoliberalismo global proposto pela finança transnacional, que pretende associar todas as formas de nacionalismo e ao estigma do fascismo.

Fascismo não é Adjetivo

O que temos aqui é uma receita explosiva para o ambiente democrático, no qual uma neo-esquerda elitista, burguesa e acadêmica, negacionista da realidade, pretende avançar contra o povo, chamando-o de maneira genérica e adjetiva de “fascista”, ao invés de conquistá-lo política e eleitoralmente. O povo brasileiro, com sua cordialidade própria de país mestiço, rechaça as ideias puristas e eugenistas da esquerda pós-moderna, sofrendo dramaticamente o impacto de seu modelo econômico neoliberal. Assim, chamar um povo empobrecido e endividado de “fascista” em meio a um processo eleitoral acendeu um alerta na profunda sabedoria e inteligência popular que foram determinantes para a decisão nas urnas em 2018 e sustentam até hoje o cenário político do país, marcado pela falsa oposição vermelho x amarela do bolsolulismo.

Enquanto a esquerda pós-moderna culpa o povo e acredita em inimigo interno no país, marcadamente uma suposta “elite branca, masculina, heteronormativa, cristã e conservadora”, ignora que o ataque à soberania nacional impacta sobretudo a classe média e toda a cadeia econômica entorno dela, em função da desnacionalização dos ativos das maiores empresas do país, em todos os setores. Presa em sua micro-bolha, a esquerda pós-moderna que se preocupa com o uso de banheiros em praças de alimentação de shopping centers e acredita na versão contada no documentário Democracia em Vertigem, da Netflix, que nega absolutamente qualquer intervenção estrangeira no alegado “golpe” contra o Brasil. Enquanto pregam modelos escandinavos de sociedades em um país no qual a maioria da população vive em condições subsaarianas, a esquerda pós-moderna tenta convencer ao povo evanescente de que é culpado pela própria falência, chamando-o de “fascista”.

A culpa não é do povo e esta é autocrítica que o PT não deseja fazer, ignorando as dimensões do chamado “antipetismo” decorrente do descontentamento generalizado da população com a situação do país entregue pelo petismo após quatro eleições sucessivas e 16 anos de mandato de suas coligações. Trata-se de um equívoco vergonhoso e negacionista da realidade. O povo é a solução e para que isso se concretize é necessário que os líderes políticos se aproximem dele, falem a sua língua e apresentam propostas para desenvolvimento do país, bem-estar e melhoria da qualidade de vida de sua população. Fascismo não é adjetivo e evocá-lo no vocabulário político é uma medida leviana e irresponsável. Os fantasmas sempre sabem para quem aparecem, assim, não é recomendável evocá-los, uma vez que as demandas materiais para milhões de brasileiros e brasileiras são cada vez mais iminentes e não faltam adjetivos mais qualificados para o abismo para o qual caminho o país.

Autores do Texto:

Diogo Oliveira – Mestre em Antropologia Social

Rafael Cândido – Mestre em Ciência Contábeis

* As reflexões deste texto são inspiradas nos debates do Portal Rubem Gonzalez e do Super Grupo Rubem Gonzalez


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