TELA AZUL 2 – MAMATAS E ASSASSINOS

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Por Marcelo Gomes e Josh Del Castillo

O Presente texto é uma continuidade do Texto: Tela Azul – a farsa da ‘praticidade’ da tecnologia brasileira

1- Mamatas versus investimento social:

Desde a criação do Bolsa Família ouvimos uma narrativa sobre as pessoas beneficiárias dos programas de transferência renda, como sendo “vagabundas” e que “não gostam de trabalhar”. Este discurso também é reproduzido em relação a outras políticas públicas que visam o fomento de atividades de pesquisa, artística etc. Há, claramente, uma desvirtuação da função do Estado quando se refere a essas políticas que almejam beneficiar a população, o que não foi diferente com quem tem direito ao auxílio emergencial.

Temos, portanto, uma concepção de Estado muito bem delineada. Percebam que quando as medidas visam atender aos interesses dos mais pobres, trata-se de “mamata”, uma indignação com o uso do dinheiro dos “nossos impostos” é repetida cotidianamente. Mas, quando é repassado 1,2 trilhão aos bancos, ou dados 10 Bilhões de isenção fiscal ao agronegócio não notamos essa indignação.


2- A questão do trabalho:

Outro ponto interessante, para além das concepções de Estado, diz respeito a visão em torno do trabalho. Vivemos muitos séculos sob a égide do trabalho escravo. No pós- abolição houve uma tentativa de se desvincular das funções antes exercidas por escravos. Durante a Primeira República ocorreu uma reconfiguração narrativa em torno da categoria “trabalho”, principalmente com a “invenção do trabalhismo”, concomitantemente ao avanço capitalista no Brasil, como analisado por Angela de Castro Gomes.

Existiu um profundo processo de disciplinamento da classe trabalhadora, inclusive endossado pelas associações de trabalhadores. “O trabalho dignifica o homem…” etc.

3- Capital vs. Trabalho:

Mas é preciso, para o bem maior da Sociedade nesse momento, evitar que tal interpretação ao Trabalhismo seja tomada como crítica, porque o Capital Financeiro subverteu a lógica do trabalho e o colocou como acessório, secundário mesmo, ao sistema. E, podemos dizer que essa crise já indica uma retomada do modelo de Capital Trabalho aos moldes do século XX pré-
neoliberalismo, antes da época em que “Lobos de Wall Street” deturpassem a lógica do capital para fomentar bolhas especulativas vazias, baseadas em uma replicação e reprodução irracional dos mesmos ativos reais, tal como um vírus faz com as células de um corpo infectado. Essa multiplicação especulativa está matando a Economia global e, já é ponto pacífico que precisa ser freada o quanto antes.

4- A grande questão:

O que se percebe atualmente são esses aspectos da história brasileira sendo postos em profundo questionamento. Não é preciso dizer que a estrutura social cria subjetividades,comportamentos e disciplina. As mudanças atuais são também uma oportunidade de construir outras subjetividades e concepções conceituais.

Essa necessidade de reafirmar que as pessoas que recebem auxílio são “vagabundas” é medo!

A insistência de considerar como “vagabundos” quem defende o isolamento social, no fundo é medo! Eles temem que as atuais condições desfaça, ou, propicie uma oportunidade de desconstruir esse disciplinamento histórico. Temos uma oportunidade educativa em nossas mãos. Afinal, vale a pena trabalhar tanto em nome do enriquecimento de poucos?

Qual o problema de reduzirmos nossa jornada diária de trabalho? Por que não exigir que o Estado garanta nosso conforto e Bem Estar social? Não se sinta mal por não estar trabalhando. A vida é nosso bem mais precioso. O resto são narrativas e discursos.

5- Desigualdade Educacional – o maior risco:

Nossa deficiência e desigualdade educacional é exorbitante, deixando sempre atual a crítica ao projeto de deseducação que o Darcy Ribeiro tanto denunciava.

As pessoas precisam acessar um Web site ou um aplicativo para conseguem seu auxílio emergencial, muitas ligam no teles serviço do Ministério da Cidadania, 111, mas não compreendem aquela explicação impessoal e técnica, aí vão pra fila nas portas das agência da CAIXA para os bancários dizerem, numa linguagem que ela entenda, a mesma coisa que o 111 disse mas não se fez entender. Com isso, muitas pessoas – as mais simples – retornam às filas, sem sucesso, por vários dias, se expondo repetidas vezes à contaminação. O que acaba por deixar subentendido um projeto macabro de disseminar o vírus justamente entre os que dependem dos programas sociais (Mamatas).

6- Comparativo Digital e analógico:

É importante verificar, nesse tema tão sensível, como uma Sociedade com maiores indicadores educacionais e muito mais imersa no mundo da tecnologia da informação, os Estados Unidos da América (pra ficar num exemplo mais próximo ao discurso oficial do Planalto e do gabinete do vereador federal), não estão liberando o Auxílio Emergencial deles em aplicativos de celular, mas com cheques, voucher de papel, para agilizar a distribuição e a utilização. E isso fala muito sobre a efetiva vontade de se resolver o problema sócio econômico decorrente da Pandemia, ou de criar soluções mirabolantes que, no mínimo, demonstra um profundo desconhecimento e descolamento das autoridades com a realidade do povo.

7- Medo vs experiência:

Nesse momento, a atuação do pessoal dos bancos estatais é importantíssima, com um maior peso para a Caixa Econômica Federal, que é onde se acumulam as pessoas, até mesmo pela experiência de atendimento anterior. A Caixa, nos últimos anos, foi protagonista de várias políticas de tentativa de salvar a Economia em declarada queda. Houveram duas liberações de saldo FGTS, uma de Cotas de PIS, e sempre com uma super-demanda da população pela atendimento, cada vez mais precarizado por uma política de redução de pessoal.

Contudo, sabe-se que o pessoal da Caixa tem expertise em pagamentos e atendimentos em massa, mas o caso hoje é pautado pelo medo. Com as aglomerações nas portas das agências, coincidindo com um período de evidente aumento da curva epidemiológica, o empregado Caixa e os terceirizados sabem que estão se expondo e expondo sua família a contaminação pelo SARS Cov 2. E isso torna tudo muito mais difícil.

Conclusão:

Para fins de demonstrar como o desgoverno pode trazer a tragédia, com um presidente inconsequente e uma oposição perdida e fragmentada, a morte de milhares de pessoas se torna algo aguardado. Não se trata mais de uma disputa de discurso, mas sim de uma luta entre quem merece ou não viver.

A alegada “brandura” da reforma da previdência parece ter conseguido uma ajudinha do destino com a possibilidade de “enxugamento da folha” do INSS pela via do COVID19. Não só do INSS mas também dos beneficiários e potenciais beneficiários de programas sociais.

A revolução que eliminaria uns 30mil, que tanto pregava o então desconhecido deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro – Jair Bolsonaro – nos anos 1990, parece ter tomado corpo com as medidas que ele defende para manter este sistema econômico desequilibrado, lavando as mãos do Estado no sangue e secreções dos, talvez, mesmos 30mil – com potencial de milhões – que provavelmente perecerão de Covid19, por decorrência da doença propriamente dita, ou da falta de leitos causada por ela. E o normal segue sendo a nossa anormalidade histórica.

Marcelo Gomes é Historiador com doutorado em Educação pela UFF
Josh Del Castillo é músico e bacharel em História pela UFJF


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