Episódios estarrecedores abalam o Brasil

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Por Paulo Alonso.

Uma semana depois de demitir Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro se meteu em mais uma encrenca e dessa vez com o seu então ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, a quem pediu a cabeça do então diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, por julgar que o delegado não lhe daria as informações das investigações às quais gostaria de ter acesso.

Moro, depois de 479 dias no governo e sofrendo violentas e inconcebíveis pressões, num comprovado e permanente assédio moral, não concordou com o pedido que lhe fora formulado e preferiu, com dignidade, deixar a pasta que ocupava, denunciando uma por uma as investidas de Bolsonaro à imprensa.

Ele, na realidade, ofereceu, em seu último e grave pronunciamento à frente da Justiça, um roteiro detalhado para a abertura de um processo de impeachment contra o presidente da República.

A demissão de Moro é, certamente, um divisor de águas da Era Bolsonaro. Em seu lugar, assumiu Andre Mendonça, que até aqui ocupava a Advocacia-Geral da União.

Todos os episódios envolvendo a saída de Sergio Moro são estarrecedores. Ele não assinou a exoneração do delegado Valeixo, mas no Diário Oficial, na primeira versão, constava a sua assinatura abaixo da do presidente. Ele reagiu, e aí, nova versão foi editada, sem a assinatura de Moro. O texto da sua exoneração diz que o delegado pediu demissão. Outra mentira, o delegado não pediu sua demissão, apesar da forte pressão a qual vinha sendo submetido para que largasse a função que exercia.

O ex-magistrado garantiu que Bolsonaro pedia acesso a investigações da PF e que, em conversa, manifestou preocupação com os inquéritos abertos no STF envolvendo os seus familiares. O presidente, ainda segundo Moro, teria lhe dito que queria mudar os superintendentes do Rio de Janeiro e de Pernambuco.

O Brasil vivia um dia de caos, na última sexta, até que Bolsonaro resolveu, depois de quase seis horas, se pronunciar, acompanhado de todo o seu ministério, com vários dos ministros visivelmente constrangidos em estar ao lado do chefe supremo, detentor da temida caneta Bic. Populares em todo o Brasil fizeram panelaços contra a fala de Bolsonaro.

Fala-se que Paulo Guedes, da Economia, e Teresa Cristina, da Agricultura, são fortes candidatos a deixar o governo. Eles brilham, como brilharam Mandetta e Moro, por serem justamente inteligentes, preparados e eficientes. Essas qualidades são, na visão, do presidente, negativas. De qualquer forma, Bolsonaro deu uma demonstração, na última segunda-feira, de que quer privilegiar Guedes, chamando-o de “homem da economia”. Será mesmo verdade?

Ao discursar, primeiro de improviso, e depois lendo um texto absolutamente confuso, desconexo, Bolsonaro, no dia da demissão de Moro, acabou se entregando ao dizer que ia diretamente às fontes de informação, Forças Armadas e Abin, para saber sobre as investigações que aconteciam no país. Ele não negou, em nenhum momento, desejar ter informações de inteligência para tomar decisões, “natural, mas que deve ser feito de maneira formalizada”.

Disse que Moro mentia e que o ex-ministro teria vinculada a saída de Valeixo da PF em troca de sua nomeação ao STF. Imediatamente, Moro reagiu e comprovou que se tratava de uma invenção do presidente que queria, com essa perigosa afirmação, queimar sua biografia e denegrir, mais uma vez, a sua imagem de líder popular.

Moro, inclusive, exibiu mensagens trocadas, por WhatsApp, com Bolsonaro nas quais este escreve que está na hora de trocar o diretor-geral da PF, que está atrás de 10 a 12 deputados bolsonaristas. Moro responde ao presidente, explicando que o diretor-geral da PF não estaria por trás dessas ações, explicando-lhe que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, estava conduzindo o inquérito, no qual “diligências por ele eram determinadas, quebras por ele eram determinadas e buscas por ele eram igualmente determinadas.”

E como se não bastasse, Moro ainda contraria as acusações do seu antigo chefe, exibindo uma mensagem da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), na qual diz que seria a fiadora de Moro junto ao presidente para que fosse indicado para o STF, caso ele aceitasse ficar no governo e também acatasse o nome do delegado Alexandre Ramagem para a Direção-Geral da PF. Como resposta, Moro escreve que “não está à venda”.

Logo, fica claro que Sérgio Moro não barganhou qualquer nomeação em troca da saída de Valeixo. Moro foi didático e sereno ao delatar que o presidente lhe disse e mais de uma vez que queria ter uma pessoa da sua confiança pessoal no posto para quem pudesse ligar, “que pudesse colher informações, relatórios de inteligência”. Ramagem, que foi chefe da segurança de Bolsonaro, quando da sua campanha e tornou-se amigo dos filhos do presidente, acabou sendo o escolhido para suceder Valeixo.

Líderes de vários partidos reagiram com críticas e recursos à justiça, na tentativa de anular a sua nomeação. Afinal, sendo amigo íntimo do clã Bolsonaro, não terá isenção mínima para estar à frente da PF, quando a família está sendo investigada. Não tardou e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, aceitou representação do PDT e anulou a nomeação de Ramagem para dirigir a PF.

Nova derrota ao Governo Bolsonaro, que agora também frita a secretária de Cultura, Regina Duarte. A família da atriz, que pediu demissão da TV Globo depois de 50 anos, tem feito todos os esforços para que ela se demita da Secretaria.

Bolsonaro ainda não aprendeu que a Polícia Federal é um órgão do Estado, e não do Governo e que não é papel da PF prestar esse tipo de informação a um presidente da República.

Fica evidente o nível de preocupação do presidente com os inquéritos sobre as fake news e com o vergonhoso episódio das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio, quando um dos seus filhos, hoje senador, era deputado estadual.

Diante de toda essa confusão, com repercussões em jornais de todo o mundo, não restou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, outra opção a não ser pedir ao STF que investigasse a possível prática de seis crimes contra o presidente: falsidade ideológica, coação no curso do processo, prevaricação, obstrução à investigação criminosa, corrupção passiva privilegiada e advocacia administrativa. Coube ao decano do STF, ministro Celso de Mello, que já se referiu ao mandatário dizendo que “ele não está à altura do cargo que ocupa”, autorizar a abertura de inquérito para investigar as denúncias feitas por Moro.

Há uma grave crise institucional que ocorre enquanto hospitais e cemitérios estão lotados pelas vítimas da pandemia do coronavírus que assola o planeta. Aliás, o número de mortos no Brasil, mais de 5 mil e mais de 70 mil contaminados, já é maior que a quantidade de óbitos havida na China. Apesar da gravidade, Bolsonaro ao ser questionado, na última terça-feira, sobre esses números respondeu: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagres. É a vida.” Essa é a resposta do presidente da República. Estarrecedora! Obtusa!

O ex-capitão e agora líder supremo do Brasil, que exerceu por 28 anos o cargo de deputado federal, pelo Rio de Janeiro, aliou-se ao Centrão, grupo de parlamentares o qual ele sempre criticou, por representar a velha política brasileira.

Todos os ex-presidentes da República se pronunciaram sobre a demissão do ex-juiz federal Sergio Moro do cargo de ministro da Justiça e da Segurança Pública. Cauteloso, o ex-presidente José Sarney chama os pedidos por um novo AI-5 de “saudosismo inalcançável”, uma vez que o Brasil tem hoje uma democracia consolidada.

Sobre os flertes do presidente Bolsonaro com grupos que defendem a intervenção militar, o político, que completou 90 anos no último dia 24, diz serem episódios sem maior importância e condutas políticas eventuais. Sarney lamentou a saída de Moro da Pasta da Justiça, pelo bom trabalho desempenhado.

Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi enfático, em seu tuíte, dizendo que a hora é de falar, pois “o presidente da República está cavando a sua fossa. Que renuncie antes de ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo período de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: a saúde e à educação. Menos instabilidade, mais ação pelo Brasil”.

Senador pelo Estado de Alagoas, o ex-presidente Fernando Collor lamentou a divisão entre pessoas e pediu a reunificação do país, mandando um recado a Bolsonaro: “Já vi esse filme antes”, referindo ao impeachment pelo qual passou em seu terceiro ano de governo.

Na visão do ex-presidente Lula, não pode haver inversão na história, “tanto Bolsonaro como Moro são dois bandidos”. Moro foi o responsável pela condenação e prisão de Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo triplex do Guarujá.

Sua sucessora, Dilma Rousseff, que foi execrada da presidência devido ao impeachment sofrido, diz que a crise é global e que o Brasil vive o mais grave momento da sua História e que o ex-ministro Moro, em sua delação premiada contra Bolsonaro, deveria ter pedido desculpas a Lula.

O ex-presidente Michel Temer afirmou que o “Brasil está atravessando a maior crise sanitária, econômica e agora, com a demissão de Moro, uma gravíssima crise política. Para a crise sanitária e econômica, precisamos de união, solidariedade e energia. Para a crise política, as palavras chaves são equilíbrio e responsabilidade”.

O jurista Miguel Reale, um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, defende que o presidente Bolsonaro seja interditado por falta de sanidade mental.

Para Reale, a revelação feita por Moro de que Bolsonaro queria interferir em investigações da Polícia Federal mostra que ele está “paranoico”. Ainda de acordo com Reale, o Ministério Público deveria pedir ao STF um “exame de sanidade mental” do presidente, uma vez que “esse pedido promoveria o afastamento de Bolsonaro das funções presidenciais de maneira mais rápida, causando menos prejuízo ao Brasil.” Os atos revelados por Moro revelam a falta de consciência de Bolsonaro acerca dos limites constitucionais.

O deputado federal Júnior Bozella (PSL-SP) comunga da mesma opinião de Reale e diz que o presidente não está sob o comando das suas faculdades mentais: “É muito claro que o desequilíbrio, a insanidade tomou conta do presidente da República.” O presidente Delfim Moreira governou o Brasil por oito meses, porque o titular Rodrigues Alves contraiu a gripe espanhola e morreu, sem tomar posse. Delfim Moreira foi o único presidente da República até agora a ser clinicamente considerado louco.

Já chegaram à Câmara dos Deputados quase 30 pedidos de impeachment contra o presidente da República. Cabe, agora, ao deputado Rodrigo Maia agir, em prol do Brasil, ainda que em um momento de pandemia.

Pesquisas realizadas esta semana pelo DataFolha indicam que a avaliação do governo é ruim e péssima, para 38% dos entrevistados; e ótima e boa, para 33% deles; no combate ao coronavírus, essa mesma pesquisa de opinião avalia que 45% dos brasileiros reprovam a conduta de Bolsonaro no combate a pandemia, enquanto 27% a aprovam. Já em relação ao processo de impeachment, há uma divisão: 45% são favoráveis, e 48% não gostariam da abertura desse processo.

Essa mesma pesquisa mostra que a maioria (64%) avalia como ótimo ou bom o trabalho de Sérgio Moro no ministério da Justiça, 22% avaliam como regular e 8% como ruim ou péssimo. Entre os que tomaram conhecimento do pedido de demissão de Sérgio Moro, os índices são próximos à média: 67% aprovam a gestão Moro, 22% avaliam como regular e 8% a reprovam.

De todos esses tristes e vergonhosos episódios, Jair Bolsonaro, aquele que, na campanha, garantia que combateria a corrupção e governaria para os brasileiros, sai menor e ainda mais isolado após a saída de Sergio Moro, que entrou grande e saiu gigante do Governo Federal. O patético e desconcertante pronunciamento do presidente no dia de demissão do seu ministro da Justiça mostra o quanto está perdido. Ele acusa a todos de conspirarem contra o seu governo, mas, na realidade, ele é o conspirador dele próprio, com as ações que vem empreendendo contra si e, sobretudo, contra o Brasil.

Até mesmo os militares que com ele atuam estão colocando suas barbas de molho, diante de tantas circunstâncias adversas, de tantas e sucessivas crises. A desconfiança em relação ao futuro do governo é grande. Em menos de dois anos, oito ministros já foram trocados.

Condições para a abertura de um processo de impeachment estão postas, já que Bolsonaro desmontou seu governo e nele ficou totalmente encurralado, cavando a sua fossa, conforme bem escreveu o ex-presidente FHC.

Paulo Alonso – Jornalista

Com informações Monitor Digital


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