Piterson Hageland – A antipolítica chegou ao fim ?

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O processo de cremação da figura política de Wilson Witzel foi iniciado. A duração de seu mandato, aliás, ultrapassa os limites que eram previstos devido à sua completa falta de escrúpulos. Não obstante, a sua deposição do posto de governador da entidade federativa do Rio de Janeiro é algo cada vez mais iminente. Contudo, essa turbulência atípica não foi motivada pelas últimas manobras realizadas pelo Departamento de Polícia Federal ou por causa da reprovação que o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) apresentou em relação aos gastos do Palácio Guanabara, e sim porque Witzel não se prestou a negociar com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). A tripartição outorga certas funções aos parlamentares, e quando estes não apoiam a conduta do Poder Executivo e/ou são isolados da atividade pública objetiva, a exoneração do chefe de governo se torna imensamente factível.

Até a consumação do primeiro turno das eleições de 2018, Wilson Witzel era uma criatura absolutamente desconhecida e a sociedade jamais imaginou que este protozoário viria a ser o sexagésimo terceiro governador do estado do Rio de Janeiro. Todavia, obteve sucesso ao embarcar no comboio neoconservador liderado por Jair Bolsonaro e que utilizava a demagogia como propulsão. Sua candidatura foi abençoada por uma multitude de seitas neopentecostais, que barganharam as secretarias de maior destaque como recompensa. Witzel menosprezou as entidades que coordenam o serialismo fluminense; ignorou as advertências do Poder Legislativo estadual e também desdenhou das análises feitas por cientistas políticos gabaritados. Agora será penalizado com a obliteração do seu regime.

O atual inquilino do Palácio Laranjeiras é somente uma entre as milhares de aberrações que vêm sendo fabricadas pelas bravatas antipolíticas Brasil afora desde as Manifestações de 2013. No entanto, o destino dos governantes é totalmente heterogêneo. Um exemplo é o trigésimo oitavo presidente da República, que apesar do seu vício em forjar desavenças no intuito de promover o caos, segue amparado pelas instituições que compõem o Estado nacional. Porém, se as diversas investigações que pesam contra Jair Bolsonaro forem ratificadas e justapostas aos índices de desaprovação popular gradativa acerca do Governo Federal e ainda somados com a insatisfação do Congresso, o superintendente da União terá de seguir o mesmo rumo de Wilson Witzel.

Outro fator preponderante na construção desse imbróglio nas glebas do Rio de Janeiro é o exclusivismo que a ALERJ também conserva em demasia. O parlamento fluminense sofreu com os inquéritos das operações provenientes da Lava Jato, tendo inclusive Jorge Picciani, um de seus próceres mais regulares, sido conduzido à Penitenciária José Frederico Marques em pleno exercício. Em votação, a dieta estadual optou pela soltura do infrator, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou que Picciani cumpra prisão domiciliar. Essas artimanhas medram o conflito hodierno entre os Poderes do Judiciário e do Legislativo. Para o escol do Palácio Tiradentes, defender tamanha sindicância policial terminaria enrijecendo o combate às prerrogativas da ALERJ. Não é à toa que os cinco deputados indiciados na Furna da Onça tiveram seus mandatos restabelecidos, com dois deles integrando a comissão responsável pelo julgamento de Wilson Witzel, o magistrado de direito torto. Em síntese, a ALERJ exprime um incômodo singular para com a antipolítica; entretanto, não demonstra qualquer objeção para com a politicagem.

É preciso ressaltar que, em virtude da crise que trespassa o Brasil, os métodos proscritivos que irão defrontar a gestão de Wilson Witzel serão estritamente insólitos. Despejar o ex-juiz federal da 2ª Região de sua hospedagem no Palácio Laranjeiras agradaria Jair Bolsonaro de uma forma teórica, mas seria traduzido como um baluarte a menos no campo de proteção da ALERJ, pois a assembleia legislativa fluminense aquiesceu com a Lei Complementar 159/2017 no governo de Luiz Fernando Pezão, anterior à Witzel. Esse despacho aborda o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), e caso a União decida reclamar a verba que ilustra a dívida estadual, o Rio de Janeiro vai amargar a pior catástrofe socioeconômica de sua história. Como os deputados não almejam preservar essa culpa, o Palácio Tiradentes está disposto a permitir que Witzel siga como dirigente máximo do Poder Executivo estadual — desde que ele aceite as condições que o parlamento irá definir sem hesitar.

Dentre tantos falastrões, João Doria parece ter sido o único que desistiu de negar a importância da política. O trigésimo sétimo governador bandeirante não esconde o seu desejo de assumir o controle do Palácio do Planalto já em 2023, e também observou que a pandemia do COVID-19 anulou o gambito daqueles que repudiam a administração pública, sendo hoje o principal regente da tribuna organizada pelos chefes do Poder Executivo de todas as vinte e sete unidades federativas do Brasil. E por mais ignóbil que seja, Doria não é obtuso feito Jair Bolsonaro e Wilson Witzel. O quinquagésimo segundo prefeito de São Paulo angariou centenas de milhões de reais no Tesouro Direto através dos títulos de renda fixa; manipulou os ativos circulantes de seus empreendimentos para branquear esse capital e ludibriou os apedeutas com uma porção de farfalhadas minarquistas. Portanto, Doria sabe que os habitantes de um local arruinado em diferentes horizontes irão preferir os conchavos macróbios que ainda ofertavam benefícios mínimos do que a antipolítica que não foi capaz de resolver nem um obstáculo sequer até o momento presente.

No poscênio, Wilson Witzel teme ser cassado e, com a elisão de seu foro privilegiado, acabar dividindo a cela de algum presídio com os ex-governadores do Rio de Janeiro diretamente eleitos. Isso explica as razões que o fizeram mitigar as críticas que direcionava à presidência da República Federativa do Brasil e também o repartimento abrupto de cargos no Poder Executivo fluminense para os membros da ALERJ. Mas essas táticas revelaram-se inúteis, dado que a tempestade sobre o Palácio Guanabara adquiriu potência uma vez que o togado da arbitrariedade não possui base parlamentar. A insensatez sempre cobra juros altíssimos, e Witzel pagará além das cifras por mesclar a semântica da famigerada “velha política” com a ortodoxia do apolitismo.

Autor do Texto: Piterson Hageland — Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional. Membro da Ordem dos Jornalistas do Brasil (OJB).

Com informações OERJ


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