O curioso caso das facções criminosas que não tem projeto de poder.

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Em maio de 2006, ainda morando em Caçapava-SP, estava eu na Van a caminho da faculdade com meus colegas ouvindo a rádio local. As notícias davam ciência de vários ataques simultâneos no estado de São Paulo promovidos por uma facção criminosa bem conhecida, o PCC.

Ouvíamos atônitos o radialista descrever a situação em algumas cidades próximas a nós, o cenário era de uma guerra civil, ônibus interceptados e incendiados, policiais civis e militares, Bombeiros assassinados, civis mortos, ataques a delegacias, saques enfim um verdadeiro pandemônio. Pois bem, passados um dia ou dois da primeira notícia sobre os ataques, a cidade de São José dos Campos-SP também foi alvo de uma espécie de toque de recolher, ordenado pelos marginais integrantes do PCC, soubemos do fato quando ao chegar a faculdade o coordenador estava na portaria dispensando todos alunos e pedindo pelo amor de Deus para que voltássemos à casa, sem demora, pois quem fosse encontrado nas ruas seria alvejado pelos marginais que estavam fazendo a ronda para se certificar que a ordem emitida da cadeia pelo líder estava sendo cumprida. Foi um final de semana de pânico para nós, que se estendeu para a semana sem aula, sem poder sair de nossas casas. Em 3 dias o PCC em ação coordenada conseguiu fazer 280 ataques dominar simultaneamente 67 presídios, queimam o diretor da cadeia pública de Jaboticabal, mais de 300, pessoas reféns entre elas, servidores e familiares dos presos, queimam mais de 80 ônibus, matam 46 pms e agentes penitenciários, e deixam 78 feridos, o cenário é assustador, e o poder público a essas alturas perdeu completamente o controle da situação.

E olha que não foi só no Estado de São Paulo que o PCC coordenou essas ações, Estados como Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais também foram alvo desse semana horrenda de mortes e violência desenfreada.

Os motivos, segundo dizem as investigações e as matérias jornalísticas da época, além das questões recorrentes como melhores condições para os apenados, retomada das visitas, etc, também era uma retaliação pela transferência de última hora dos 765 membros do PCC alocados nas mais de 80 penitenciárias espalhadas pelo Estado de São Paulo para a Penitenciária de Segurança Máxima de Presidente Venceslau-SP, dentre os quais estavam lideranças e o Chefe do PCC o Marcola.

Ocorreram tentativas de parar os ataques e uma delas foi um encontro com o Diretor do DEIC á época Godofredo Bitencourt, onde o mesmo pediu a Marcola que suspendesse os ataques, porém sem sucesso pois o chefe do PCC disse nessa ocasião que a ordem já estava dada e não voltaria atrás, depois disso Marcola foi transferido para a Penitenciária de Presidente Bernardes, considerada a mais segura do Estado, oque causou ainda mais revolta nos marginais.

Vendo que não teriam sucesso em conter a onda de ataques, representantes do governo e dos órgãos de segurança do estado aceitam se reunir com uma advogada que apareceu dizendo que representava interesses de um líder da facção que estava solto e que a solicitação desse líder era ver as condições em que se encontrava Marcola na prisão. Esse encontro ocorreu, e especula se ate hoje quem teria participado desse encontro inusitado para verificar se o líder da maior organização criminosa atuante em presídios do mundo, estaria sendo bem tratado. Fato é que após esse famigerado encontro os ataques foram cessando conforme a notícia de que Marcola estava bem foi se espalhando ente a bandidagem.

Acredito que desde a morte de Pablo Escobar, narcotraficante famoso da Colômbia, o mundo havia presenciado tal queda de braço entre crime organizado versus Estado.

Diversas outras organizações criminosas existem e competem pela liderança do crime organizado no país, como a Família do norte nos presídios no norte do país, fizeram também rebeliões e promoveram carnificina dentro dos presídios na região norte, mas nada na dimensão do que foi feito em 2006 pelo PCC no Brasil.

De tempos em Tempos o PCC mostra seu poderio contra o Estado, com uma estrutura organizacional bem montada que vai desde o jurídico com advogados criminalistas que atuam não somente nos processos mas também no pagamento de propina aos agentes públicos, inteligência que colhe dados doesses agentes públicos para determinados ataques assim como os que ocorreram em Mossoró-RN e Cascavel-PR, onde foram assassinados 3 agentes Penitenciários Federais a mando do PCC, a distribuição e venda de drogas, assaltos e assassinatos encomendados.

Pois bem, toda essa história serve de introdução para o assunto principal: a fala do Deputado Marcelo Freixo numa live no último final de semana, onde o mesmo disse que o tráfico é regionalizado e os traficantes não tem projeto de poder, não andam em palácios, mas a milícia essa sim, a milícia é a grande vilã, veja que a ideia que se quer passar com essa fala, ainda que numa conversa despretensiosa pelas lives de rede social, é que o problema não é o tráfico. Oras bolas, como assim cara pálida ? O tráfico de drogas gera a milícia senhor deputado, pois a milícia vende a ideia de segurança, segurança essa que o Estado como um todo, desde as décadas de 1970 parece ter cada vez mais dificuldade de oferecer aos cidadãos.

Me parece que o Deputado, apesar de engajado na causa do combate a violência urbana, ignora a atuação crescente das facções criminosas que vem ocorrendo em boa parte do país de uns anos para cá. O senhor se informou sobre os assassinatos dos Agentes Penitenciários Federais ? O senhor estudou a dinâmica da operação feita por essa organização criminosa para assassiná-los? Posso te dar um resumo, e olha que não sou relatora de CPI né, estudiosa da área de segurança pública, mas vou te ajudar nisso.

Quando a facção escolhe um alvo ela designa um membro que estuda toda a rotina diária do alvo, aluga uma casa nas proximidades, tudo sempre muito discreto pagamento de aluguel adiantado, vizinho acima de qualquer suspeita, diferente do bandido candango tatuado estereótipo mais conhecido, esse se diferencia pela vestimenta, pela educação com os vizinhos e passa despercebido aos olhos mais atentos. Depois de levantada toda a rotina do alvo é planejada e executada a ações que culmina na morte dessas pessoas.

Vocês podem estar achando que falo de ações dentro dos limites de São Paulo, como supôs o senhor deputado na sua fala quando disse que o trafico é regionalizado, mas não, essas ações ocorrem em todo país, as últimas que se tem noticia aconteceram em Mossoró-RN e Cascavel-PR vitimando 3 agentes.

A época da intervenção federal no Rio de Janeiro em 2018, o PCC que segundo o senhor é regionalizado, fez diversas investidas violentas no intento de dominar o tráfico em diversos pontos do Estado do Rio de Janeiro, isso com general como secretário de segurança pública, interventor federal, Força Nacional e exército nas ruas patrulhando, etc, mas pelo visto para o senhor isso não é projeto de poder não é mesmo ?

Até entendo o seu protesto contra as milícias, pois seu irmão foi assassinado em 2006 num atentado que tinha como alvo a sua pessoa, após o senhor delatar os esquemas dessas milícias à justiça, e até hoje o alvo continua sendo o senhor, tanto que é persona não grata na região oeste do RJ, pois essa região é dominada pela milícia. Porém a pergunta que fica é: o senhor acredita que no caso de uma delação sobre algum chefe ou líder do tráfico da região, o modus operandi da facção delatada seria diferente? Na minha humilde opinião, não, não agiriam diferente senhor deputado, queimariam o arquivo da mesma forma que as milícias fazem.

O tráfico de drogas não é e nem nunca foi regionalizado, as facções não agem somente em uma região e a luta pelo poder é constante, a queda de braço entre poder publico e organizações criminosas é constante, só não vê quem não quer, ou quem acha que os pobres criminosos são vítimas do sistema opressor do Estado. O estado já não oprime mais ninguém, o estado mantém acordos com essas facções, pois essas tem poder de mobilizar e tacar fogo no país, isso está mais do que provado nos atos de 2006.

Me pergunto depois dessa fala qual a real intenção do senhor deputado em minimizar dessa forma a atuação do tráfico. Será que o senhor acredita mesmo que essa conversa engana alguém? O que te fez pensar que essa passada de pano seria aceita por nós?

Esse teu discurso passa panista só favorece a tese de pessoas oportunistas que bradam em redes sociais que a vereadora Mariele Franco, que assim como o senhor é um nome muito conhecido de esquerda no país, tinha ligação e foi morta pelo trafico do Rio de Janeiro.

Não existe luta contra a criminalidade caçando apenas uma classe de bandidos e aliviando para outras classes senhor deputado. Não sei qual foi sua intenção quando disse isso na live do final de semana passado, e também não sei qual foi a ideia do Ciro Gomes quando apenas concordou com as aberrações que o senhor disse, mas o que é certo é que: Bandido é Bandido, não importa se é traficante ou miliciano, ambos são um câncer pra sociedade e devem ser combatidos como tal, e não colocados em uma balança moral pra ver quem é mais danoso.

É por essas e outras que um candidato sem projeto nenhum ganhou a disputa eleitoral só na conversa e na promessa de melhorar a segurança pública no país. Os representantes de esquerda e essas manias desgraçadas de quererem relativizar a problemática da droga, dos crimes e da violência com isso dando voz aqueles que deveriam ser combatidos e tirados do meio social.

Se de um lado temos uma pseudo direita que protege a todo custo milicianos, na esquerda temos os que protegem e passam pano para os traficantes na cara dura. Ser de esquerda a muito tempo deixou de ser sinônimo de defesa dos direitos do trabalhador.

Autora do texto – Herika Amante


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