Brasil não tem condições de crescer hoje na briga entre China e EUA

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Por Raquel Miura

Desindustrialização, pauta de exportação baseada em produtos primários e ausência de um projeto de país travam avanço comercial do país em meio à artilharia dos dois gigantes.

O aumento da tensão na relação entre China e Estados Unidos pode afugentar negócios mundo afora e o Brasil não tem hoje condições de tirar vantagem dessa disputa e crescer comercialmente. Essa é avaliação de especialistas ouvidas pela RFI após a temperatura diplomática ter subido esta semana com o fechamento do consulado da China em Houston, no Texas, determinado pela Casa Branca, em meio a denúncias de que hackers chineses tentavam roubar dados sobre a vacina contra o coronavírus que está sendo produzida por empresa americana com apoio do governo Trump. Pequim disse que foi uma medida sem precedentes e que estuda retaliações.

Muito se discute como o Brasil poderia aproveitar o momento e expandir negócios diante da guerra de trincheiras das duas superpotências. Mas para a economista Cristina Helena Pinto de Mello, especialista em relações internacionais e comportamento do consumidor, o país não tem parque industrial nem estratégia de governo para avançar nessa seara agora.

“Situação delicada, onde precisaríamos ter um projeto de nação, um projeto de país e nos alinharmos estrategicamente com essas grandes potências para nos recolocarmos, para termos uma inserção no mercado mundial diferente da que temos hoje. Ganhar espaço em produtos industrializados, mais modernos tecnologicamente”, diz a analista. Para ela, o Brasil reforçou sua pauta de exportações em produtos primários especialmente para a China, como alimentos e minérios, e não consegue avançar em outros setores. Ela diz que a pandemia do coronavírus traz um rearranjo nas negociações mundiais e que para alavancar as vendas brasileiras, também é necessário um programa pensado, inclusive na geração de empregos aqui.

“Esse é um desafio que não é um desafio só para o Brasil, mas um desafio mundial. Mas como nós temos uma atraso tecnológico, nós saímos em desvantagem nessa situação. Ao mesmo tempo, temos um redesenho dessas cadeias de valores internacionais. Há uma tendência à regionalização. Então uma atuação estratégica do Brasil seria absolutamente importante para a gente repensar e alinhar com nossos parceiros latino-americanos, nossos parceiros mundiais uma nova estratégica de inserção, que permita ao Brasil um grau de complexidade produtiva maior e uma reindustrialização do país. A gente precisaria hoje de um plano nacional, estratégico, econômico para pensarmos essas relações com vistas a outro fator importante: a empregabilidade. E isso falta. Nós temos uma visão bastante curta, míope de que o ajuste econômico das contas públicas e uma maior eficiência do governo podem garantir um resultado mágico nessas questões, o que não é verdade. Nós precisamos ter ações estratégicas, fazer escolhas”, disse Mello.

A condução da política externa do Brasil é outro elemento apontado por especialistas como entrave hoje para o crescimento econômico do país. “A política externa brasileira nesse momento com o governo Bolsonaro apresenta uma falta de clareza quanto aos seus objetivos com a China e também com os Estados Unidos. É que apesar do alinhamento no discurso do presidente daqui com o de lá, os resultados práticos têm sido muito pequenos, não se vê benefícios claros nem ganhos para o Brasil por causa desse alinhamento. Por outro lado, em relação à China, com quem o Brasil tem uma grande relação comercial e mesmo de investimentos nos últimos anos, o governo tem muitas vezes adotado uma postura muito crítica. Isso tem prejudicado se não de maneira direta os negócios, com a diminuição do comércio, a relação política não tem sido muito boa, com o país perdendo oportunidades”, analisa Alexandre Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos e Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Retórica americana

Uehara avalia que ao contrário do que alguns pensam, a deterioração das relações entre Trump e Xi Jinping podem prejudicar vários países emergentes. “Bastante negativo. Pode deteriorar o ambiente de negócios internacionais, fazer com que a economia mundial cresça menos, com impactos diversos inclusive nas exportações do Brasil. Dessa forma não vejo nenhum benefício para o Brasil a partir da tensão crescente entre os governos de Washington e Pequim”.

Além de não trazer vantagens ao colega Bolsonaro, o discurso nacionalista do presidente Donald Trump é visto por alguns analistas como retórica, uma vez que na prática a atuação da chancelaria americana contribuiu na verdade para expandir o poderio comercial da China, acirrando a disputa mundial entre os dois países.

“Me parece que tem sido muito mais baseado em retórica, em discurso e palavra, do que uma política externa clara. Nos últimos anos, o presidente Trump abriu vários espaços políticos e econômicos para que a China ocupasse, diferentemente do que os Estados Unidos fizeram com a União Soviética. Trump saiu de acordos internacionais, começou a brigar com tradicionais parceiros, como países europeus, abrindo espaço assim para a China ocupar. Usando a linguagem do futebol, os Estados Unidos recuaram para seu campo e estão deixando a China atacar. E agora a China atua de maneira muito mais confortável no campo internacional. E tem atuado de maneira muito ativa”, afirmou Uehara.

Briga de Gigantes

Não apenas a corrida por uma vacina contra a Covid 19 nem ataques relacionados a números da pandemia no território China. Especialistas dizem que a trata-se de uma disputa entre dois gigantes, ancorada em vários fatores, como a desindustrialização americana de um lado e o crescimento, por sua vez, da China.

“Hoje os Estados Unidos possuem a moeda de reserva para todas as transações internacionais, que lhe confere uma série de benefícios. A China faz um enfrentamento com a desvalorização da sua moeda, tenta avançar no mercado de títulos, de ativos, para tornar sua moeda mais robusta, mais demandada internacionalmente. Não só isso. Estados e China disputam mercado internacional. A China atuou bravamente com suas reservas comprando negócios no mundo inteiro, criando cadeias de valor em vários locais, ameaçando a hegemonia americana”, disse a economista Cristina Helena Pinto de Mello.

Ela cita ainda briga pela tecnologia 5G, que também foi alvo de denúncias de americanos contra chineses. “A tecnologia hoje vai permitir acesso a um universo de dados que vai abrir mercados, facilitar contato com clientes, melhor precificação, maiores vendas, ampliação de market share. Então a tecnologia 5G também está por trás dessa briga. E obviamente estamos também num ambiente de eleições agora nos Estados Unidos, com o presidente que tem um discurso nacionalista forte”, disse Mello.

Com informações RFI Brasil


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