Piterson Hageland – Sobre revoluções em cenários lotados de pós-modernismo

Gostou? Compartilhe!

Sobre revoluções em cenários lotados de pós-modernismo

Há quase duas semanas, em um diálogo extenso com uma amiga muito querida e de longa data, uma série de (novas) críticas ao fato social que atravessa o país eclodiram em meus pensamentos devido às suas perguntas impecáveis. Ela, que é oriunda de Goiânia mas reside em Uberaba, não demonstrava tanto entusiasmo com o formato ríspido de oposição que eu sempre apoiei — e permaneço defendendo — contra os imperialismos multilaterais e o sistema de deformação cultural que o neoliberalismo desempenha no Brasil.

Sou amplamente favorável à tese de que determinados imbróglios sejam resolvidos com ações diretas porque não acredito que conceitos paliativos, letárgicos e maledicentes possam instaurar revoluções fidedignas. Esse meu autorretrato talvez contenha nuances ingênuas em razão do véu da pusilanimidade nublar os brasileiros arredios sem a menor cerimônia. Não obstante, o ceticismo da moça adveio da sua própria compreensão sobre o que é pertencer a uma sociedade líquida; artificial e instrumentalizada.

O que faz a tirania neoliberal ser tão consistente ? Por qual motivo não há uma resistência legítima contra isto, fora a rápida marginalização dos grupos que surgem para combatê-la ? E apesar das injustiças entre as classes sociais apresentarem um contraste notório e gradual, por que não temos um movimento revolucionário autêntico e severo ? Como os brasileiros admitem que o Palácio do Planalto seja essa nódoa hirudínea em uma situação global tão insólita ? Para desfazer esse nó górdio, é necessário interpretar de maneira razoável o funcionamento dos artefatos hegemônicos que detêm a manutenção do poder como escopo.

Por via de regra, quem almeja introduzir um plano de dominação é obrigado a eliminar seus oponentes. A práxis neoliberal jamais abdicou deste raciocínio. A encetadura de um novo sistema exige um respaldo oferecido por uma gama de métodos que evocam a truculência em diversos níveis. Todavia, esses procedimentos não bastam para conferir estabilidade aos dispositivos de controle político, social e econômico. É de conhecimento geral que a imensa maioria dos governantes brasileiros, nos Três Vértices da República, nunca relutaram em agredir os trabalhadores. A violência que o neoliberalismo utiliza para impor os seus dogmas não é, sob hipótese alguma, o fator preponderante na consolidação de suas teorias.

Há pouco menos de dois séculos, as diretrizes que controlavam as sociedades do Ocidente eram nitidamente repressivas. Os detentores dos meios de produção humilhavam — e seguem explorando — brutalmente os operários na indústria e no campo. Isso acarretava manifestações e tumultos frequentes. Em resumo, esse modus operandi refletia claramente a opressão e seus autores pois havia uma quadrilha de inimigos com presença física. Isto posto, executar atividades recalcitrantes era absolutamente indispensável.

Com o neoliberalismo, a superfície exposta é completamente diferente. A sua atmosfera não é perturbadora, e sim fascinante. É um modelo que atrai uma legião de fiéis porque não recorre ao discurso totalitário. Sua cartilha, que leva uma multidão ao delírio por conta da apologia utópica à liberdade irrestrita, dificilmente causa ojeriza em virtude da ausência de carrascos. Faltam déspotas impiedosos tolhendo o direito do povo de sair às ruas e consumir futilidades. Essa tagma justifica a inexistência de uma quarentena compulsória no Brasil, por exemplo.

O neoliberalismo converte o empregado em um protótipo de dirigente com uma velocidade esplêndida. Assim, os cidadãos se habituam à autoconflagração e passam a trabalhar retirando vantagens de si mesmos e de seus empreendimentos. É a fusão do vassalo com o senhor feudal em apenas um indivíduo. Desse modo, as cizânias laborais se transformam em um problema de foro íntimo, onde quem falha absorve toda a culpa e o estigma do fracasso. Com a evaporação do coletivismo, o ser humano descarta os óbices macrossociais da realidade inserida e questiona unicamente as suas imperfeições.

A modernidade líquida — um rizoma do neoliberalismo — foi acintosamente confeccionada para mitigar as leis e os atos coercitivos que maltratavam fisicamente a sociedade, visto que tamanho látego era ineficaz por demandar um custo de aplicação que não fornecia os resultados previstos. Um estratagema que conduz as pessoas “voluntariamente” à sua rede de manipulações é, sem dúvida, mais eficiente. Seu principal álibi são as frases de efeito que glorificam os prazeres materiais e a realização individual. A fabricação de mentalidades transigentes no lugar de criaturas ostensivas proporciona um ganho indiscutivelmente superior aos cleptocratas. Essa lógica também incide na órbita da vigilância: em meados de 2013, inúmeros brasileiros protestaram rigorosamente contra o aumento das tarifas do transporte público. Na atual conjuntura, com a prestação de serviços eletrônicos na área por companhias privadas e que aceitam fracionar o preço da viagem, as reclamações sobre as taxas cobradas pelos ônibus tornam-se gradativamente incompreensíveis. É precisamente essa crença no privilégio de “ir e vir quando se bem entende”, hiperbolicamente expandida por intermédio dos aplicativos de táxi, que as manifestações deste horizonte são facilmente abortadas. O que será contestado ? Os próprios trejeitos neoliberais ? Alguém pretende renegá-los ?

É fundamental que haja uma singularização entre os poderes impositivos e os estabilizantes. O segundo é impresso em uma fina camada de simpatia e delicadeza. É algo praticamente invisível; tanto que os súditos do neoliberalismo não têm consciência dessa expugnação social. Veneram um juízo de liberdade tão abstrato que a convolução com o fanatismo religioso irrompe no fim do algoritmo. Essa técnica de colonização hodierna aniquila as mobilizações revolucionárias instantaneamente. Os sistemas que confrontam as premissas de emancipação do indivíduo já não encontram firmeza no mundo ocidental. A modernidade líquida (ou pós-modernismo) não sofre com essa vulnerabilidade porque seu ingrediente moral é o surrealismo que forja uma libertação paradisíaca, não importando se haverá uma exploração maior do que em uma autocracia declarada.

Neste Brasil de 2020, não existe uma aliança entre os cidadãos com o intuito de organizar uma revolução nacionalista e popular. Ao contrário: a letargia do “patrão-subalterno”, distante da sociedade e próximo do mercado, simboliza o menecma laboral contemporaneidade. Quando o sistema fomenta um paradigma de competições incessantes, a produtividade medra enquanto a solidariedade é abolida. Vencer a disputa e angariar bens materiais é tudo o que interessa. Como planejar uma ação de resistência com pessoas deprimidas, egoístas e ignorantes ? Bom, eu não creio em milagres.

Também vale ressaltar que o credo marxista é um elemento que o pós-modernismo já conspurcou a fim de inutilizá-lo. O sistema neoliberal não concede espaços para que a alienação do trabalho se configure de um modo físico; sequer mencionam os termos “proletariados” e “mais-valia”. Quem está subjugado pelo neoliberalismo se dedica fervorosamente ao trabalho. Uma prova? A multiplicação expressiva dos casos da Síndrome de Esgotamento Profissional (Burnout) até mesmo durante a pandemia do COVID-19. Insurreições e trabalhos fatigantes sob condições precárias se excluem mutuamente.

Ainda sobre as evidências que ratificam o crepúsculo do marxismo, o comunismo, seu mais famoso derivado, vem se decompondo na medida em que os critérios das plataformas socioeconômicas se alteram. A economia de propriedades tem sido nublada pela do compartilhamento, e a posse dos itens reservados para fins de locação é documentada por oligopólios transnacionais. É de uma (tolice) puerilidade extrema supor, no limiar da terceira década do Século XXI, que o capitalismo irá sucumbir em um jogo ditado por cartéis. A transmutação do sistema vigente acontece intencionalmente, pois a última fase do arrendamento das mercadorias; patrimônios e similares é a comercialização da vida. Até a hospitalidade de uma casa foi rentabilizada.

O acesso que o neoliberalismo oferta não remove o seu vínculo com o capitalismo em função do dinheiro ser o pré-requisito. Os desfavorecidos continuarão socialmente estratificados e carentes do mínimo, que será agravado conforme a diluição do bem-comum for acometendo a nação brasileira. Nos trópicos dessa economia lastreada na colaboração pós-moderna, o mesmo erro de paralaxe que trespassa uma infinidade de regimes: ninguém opta por socorrer os indigentes por livre e espontânea vontade. O destino da filantropia é ser grifada como uma lenda porque um ambiente que comercializa a ética não promove ajuda gratuitamente. Os indivíduos exercem a cordialidade mediante um benefício. Isso tem a capacidade de transverter uma revolução em mercadoria, o que a justapõe automaticamente em uma sepultura.

Discorrida a tônica do artigo, por que insisto em denunciar o neoliberalismo perante a sua tropa de correligionários e aparato financeiro indescritível ? Simples: essa é a missão de um jornalista ! Relatar os enigmas do sistema à população, sem distorções semânticas, é o dever de todo comunicador social íntegro e —obviamente — dos demais cidadãos.

Tenho certeza de que não irei derrubar o sistema, mas é incorreto participar de uma batalha somente quando o risco de perder é nulo. Isso é pura covardia! O Brasil derramando lágrimas de sangue é o que me incentiva a não desistir. Meus valores, audaciosos e obsoletos sob a perspectiva neoliberal, não sobrevêm de uma ótica competitiva porque não busco troféus e medalhas. Quem não enfrenta o turbilhão da modernidade líquida é cúmplice das injustiças! E que os meus estimados amigos não se esqueçam disso.

Com informações OERJ

Autor do Texto: Piterson Hageland — Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional. Membro da Ordem dos Jornalistas do Brasil (OJB).


Gostou? Compartilhe!