A estratégia da direita para neutralizar Lula em 2022.

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Nos últimos dias, a discussão pública no Brasil, inclusive com certa anuência da direita, voltou a aventar a possibilidade de Lula concorrer nas eleições presidenciais de 2022, o que vinha estando de fora da pauta política há certo tempo. Este texto busca discutir os motivos para esse comportamento da direita em relação a Lula, bem como a possível manobra empreendida pelo sistema para tentar neutralizar a presença do ex-presidente nas próximas eleições.

A respeito dos motivos para se recolocar a possibilidade de Lula participar do pleito eleitoral, é preciso observar a decomposição da tese de que Lula realmente cometeu os crimes alegados pela Lava-Jato, bem como da própria confiança em torno da investigação, uma vez que tanto a operação quanto o juiz Sérgio Moro já foram amplamente expostos em suas irregularidades. Outro ponto que merece menção é o fato de Lula ter entrado com um pedido na Suíça para ter acesso à documentação original que comprovaria que houve alteração por parte da Lava-Jato para incrimina-lo, o que serviria para enfraquecer ainda mais a imagem em torno da Lava-Jato e de sua prisão.

A partir desse panorama, a direita está trabalhando no sentido de inviabilizar ou de neutralizar uma possível participação de Lula nas eleições de 2022, e para isso está lançando mão da grande mídia e até das mídias ditas de esquerda para conseguir levar à frente tal feito. Justamente por isso, já vemos as mais diferentes abordagens a respeito da possibilidade de Lula ser um fator que polariza o cenário e fortalece a candidatura de Bolsonaro para as próximas eleições, o que logicamente se presta a coagir a esquerda a temer que Lula siga como uma opção no próximo pleito. O ponto aqui é evitar que a presença de Lula, líder com capacidade de aglutinação política, construa um cenário eleitoral fora de controle para a burguesia nacional e transnacional.

Além disso, para o grande público, se constrói a ideia de que Lula e Bolsonaro promovem uma clivagem perigosa para o país, uma vez que acentuam o extremismo que arrisca a ordem e a paz social, o que se presta a levantar a possibilidade de construção de um movimento “mais racional e de centro” que traga o equilíbrio de volta para a política brasileira. Não à toa, a grande mídia e a elite brasileira apostam também, como alternativa caso o bolsonarismo afunde, na imagem de Sérgio Moro como uma opção para os interesses da burguesia. Aqui cabe ressaltar o papel importante que as pesquisas tem tido nos últimos tempos de vender para o público a ideia de que metade dos brasileiros estariam apoiando a continuidade de Bolsonaro no poder enquanto outra metade quer que ele saia; bem como uma pesquisa que buscou demonstrar que Bolsonaro conta com o apoio de 41% dos agentes da PM… Sempre tentando revelar um clivagem perigosa para o país.

Sobre a questão da politização e racha das forças de segurança, não podemos esquecer que é expediente cotidiano, por parte das mais diferentes mídias, tentar reforçar a ideia de que também nas Forças Armadas existe um racha que divide os militares em bolsonaristas e “racionais”. Movimento esse que busca garantir a integridade dos militares, caso o bolsonarismo venha a afundar ou mesmo para que as forças de segurança possam se constituir como oposição aparente dentro de um governo no qual são a situação e figuras fortemente atuantes (para não dizer que temos um governo militar). Assim, os militares se apresentam como situação e oposição, dominando todos os cenários.

Para referendar o que foi dito no parágrafo anterior, tivemos hoje uma fala de Rodrigo Maia elogiando os militares por terem (supostamente) impedido Bolsonaro de levar à frente uma intervenção no STF, o que se presta a reforçar a tese de que há lealdade ao Bolsonaro, mas também racionalidade no processo. Lançando mão dessa opinião, Maia ajuda a mídia a tentar também construir a ideia de que o Judiciário brasileiro está funcionando adequadamente e se insurgindo contra os abusos do Executivo; quando sabemos que o STF tem um militar como auxiliar de Toffoli, figura que, muito provavelmente, é quem pauta os debates do Supremo Tribunal Federal. A tentativa aqui é de fortalecer os militares e o STF como a voz da razão, enquanto a Bolsonaro cabe o papel de incendiário; quando falamos de duas cabeças do mesmo monstro. Não à toa, hoje também tivemos, mais uma vez, a mídia noticiando a figura de Santos Cruz se indispondo com o bolsonarismo, o que repete o mesmo “modus operandi” de sempre: construir a ideia de que há sim solução (para a oposição apoiar) dentro das Forças Armadas, de que existe militares para todos os gostos.

Retomando a questão das pequisas que revelam divisão entre os brasileiros, outra questão que também tem sido explorada fartamente pelos canais de mídia é o foco que Bolsonaro tem dado a conquistar as camadas mais pobres da sociedade, setores nos quais Lula goza de grande popularidade devido ao seu trabalho de projetos sociais. Ao capitalizar sobre um auxílio emergencial que não propôs, ao propor discussão sobre um novo projeto de renda básica e ao fazer pesada campanha no nordeste, Bolsonaro busca construir uma base de apoio entre os mais pobres, uma vez que tende a perder o apoio das classes médias que estão derretendo com a crise econômica catalizada pelo covid-19. Ao tratar dessa questão, a grande mídia retrata o Bolsonaro como um similar de Lula, só que com um populismo de direita, e faz isso negligenciando logicamente o fato de Bolsonaro fazer parte de uma plataforma entreguista enquanto Lula primou, ainda que de maneira parcial, pela redução dos interesses imperialistas no Brasil.

Ao lançar mão de aproximar a imagem de Lula à de Bolsonaro, como se ambos fossem partícipes do mesmo populismo, e que ainda por cima estaria conduzindo o Brasil para a polarização extremista, a grande mídia abre possibilidades para tentar fazer emergir figuras que fariam frente a esse cenário, posicionando-se “mais ao centro e mais racionalmente”, seja com figuras civis ou mesmo com os tais militares da “ala racional” (tentando mordiscar fatias do eleitorado de esquerda e direita). Aqui temos uma clara tentativa de driblar a vontade popular, que, ao que tudo indica, aponta para Bolsonaro e Lula, sendo que a polarização nesse processo, e que a elite quer evitar, aponta para o fato da insatisfação popular procurar essas duas vias políticas: o lulismo e o bolsonarismo. Negando esse processo e neutralizando essas forças, neutraliza-se, na verdade, o polo para onde tendem a migrar os interesses da população, o que gera um ambiente morno e apático na política, fator que tende a favorecer o “status quo” e manter tudo exatamente como está… Justamente por isso o interesse da elite em evitar isso.

Com informações Verdade Concreta


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