Por que Bolsonaro atacou a imprensa ?

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Por Thiago Espindula

A discussão que inflamou as redes e sustentou algumas “hashtags” no dia de hoje foi a questão da agressão de Bolsonaro a um jornalista que o indagou a respeito dos cheques de Queiroz destinados à Primeira-Dama, que totalizam um valor de 89 mil reais. À pergunta, Jair Bolsonaro respondeu afirmando que tinha “vontade de encher a boca” do jornalista “de porrada”, resposta truculenta que disparou a polêmica do dia nas redes. A questão central do texto orbita o motivo para o ex-capitão ter agido dessa forma.

Se é verdade que a pergunta deve incomodar Bolsonaro, posto que rememora o esquema da tal “rachadinha” do qual a sua família provavelmente faz parte, não é menos verdade que Bolsonaro sempre processa seus comportamentos no sentido de extrair certos efeitos políticos, agindo de maneira aparentemente descontrolada para gerar um efeito bastante planejado e medido. Nesse caso, Bolsonaro utilizou a situação para voltar a se apresentar como antagonista da grande mídia e também, muito possivelmente, para gerar um ruído informacional para cobrir ações mais estruturais do governo, como reformas de Paulo Guedes ou movimentos dos generais.

Agindo como um produtor de cortinas de fumaça, Bolsonaro, assim como Damares Alves, Ernesto Araújo e a ativista Sara Winter, costuma aparecer publicamente para promover cenários que produzam clivagens sociais e tempestades informacionais que sobrecarreguem as percepções dos brasileiros. Não podemos esquecer que, enquanto o Brasil debatia o episódio do aborto puxado por Sara Winter, Paulo Guedes entregou para a iniciativa privada uma fatia da Eletrobras, e que isso aconteceu exatamente na Segunda-Feira da semana passada.

Como Paulo Guedes está em meio a um processo de propostas tributárias e de entrega do patrimônio público a preço de banana para o interesse privado, é provável que as próximas semanas todas venham a ser abertas com polêmicas secundárias na política. Além disso, Bolsonaro não perdeu a oportunidade, como eu já disse, de se vender como um agente antissistema, desta vez se insurgindo contra a mídia corporativa ao agredi-la, o que, ainda por cima, forçou a esquerda a posicionar-se ao lado da imprensa corporativa brasileira, como se fazer isso fosse defender a liberdade de expressão.

São ciladas como essa que justificam a pequena aderência que o povo brasileiro tem tido às ideias do campo progressista, posto que uma das bandeiras históricas da esquerda sempre foi a crítica à grande mídia, bem como a indignação em relação ao sistema. Ao polarizar com Bolsonaro e colocar-se ao lado da grande mídia, a esquerda cria uma situação paradoxal: deixa a Bolsonaro o estandarte de crítico de uma mídia corporativa que o construiu quando vendeu a antipolítica alavancada pela Lava-Jato e enxovalhou diariamente todas as ações da esquerda no poder. Isso significa que a esquerda está tomando a posição da defesa dos mesmos grupos que o atacaram (enquanto estava no poder) e que ajudaram a construir (e que ainda defendem todas as pautas neoliberais do) o governo Bolsonaro.

O que faz desse movimento de apoio à mídia, por parte da esquerda, um gesto fracassado é o fato da grande mídia estar fechada em todos os temas essenciais com a agenda bolsonarista, trocando farpas com o governo apenas em questões epidérmicas. A cilada na qual a esquerda caiu foi a de ver polaridade onde há um teatro de oposição que é marcado por dois agentes que defendem de maneira igualmente apaixonada os interesses da burguesia, apenas buscando aparentar contrariedade. Fato esse que também se presta a construir na cabeça do brasileiro a ideia de que o país goza de uma democracia plena na qual à mídia pode até confrontar o Presidente da República, que é repreendido publicamente quando “passa dos limites”.

A mesma grande mídia que a esquerda diz defender em nome da liberdade de expressão, produziu ontem um editorial criminoso que equiparou Dilma a Bolsonaro, como se ambos sustentassem um mesmo tipo de plataforma de governo e uma mesma agenda econômica. O que a mídia faz é pegar recortes descontextualizados da realidade para aproximar a imagem de dois governos que apresentam objetivos absolutamente contrários, até por isso os mesmos grupos que golpearam o PT hoje defendem o bolsonarismo. Ao fazer isso, a burguesia busca passar a mensagem de que o PT não seria uma alternativa ao bolsonarismo, mas sim uma plataforma que cometeu os mesmos erros, e faz isso com dois intuitos: o primeiro é o de excluir o PT como possibilidade de oposição; e o segundo é pressionar Bolsonaro a mudar o curso de sua política quando ela diverge de certos interesses da burguesia. Além disso, a elite busca abrir um cenário no qual possa apresentar uma alternativa tida como uma terceira via para além dos ditos “populismos bolsonarista e petista”.

Por fim, não podemos esquecer que a esquerda não tem menos vontade (e até motivos) para querer encher de porrada a mídia corporativa brasileira, o que significa que a sua defesa de uma falsa liberdade de expressão que nunca houve na grande mídia significa uma prática hipócrita e que confunde o povo, para quem deveria ser esclarecido o papel espúrio que o jornalismo promoveu e promove ao defender as pautas antipovo. A esquerda precisa elucidar o povo a respeito do fato da grande mídia e de Bolsonaro nada terem de oposição, sobretudo nos temas que prejudicam as massas trabalhadoras do nosso país, e não é defendendo a ridícula tese da “civilização vs barbárie” que ela irá conseguir fazer isso. A grande mídia não está ao lado da civilização, assim como nenhum elemento da direita está, é por isso que todo “frentão” que tente articular diálogo com setores burgueses e com os seus veículos tende a fracassar diante do povo brasileiro, que está frustrado com uma crise econômica que vem destruindo o emprego e a renda no país (e que foi amplamente fomentado pela mesma grande mídia que a esquerda diz defender).

A seguir, vídeo discutindo o tema abordado no texto.

Com informação Verdade Concreta


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