A nota de 200 reais dará boas-vindas à inflação?

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Esse artigo é uma contribuição do Jornal Puro Sangue

A nota de duzentos reais chegou, e o lobo-guará se espalha para além do cerrado. Com uma perspectiva de emissão na ordem de cem bilhões, pretende aumentar a circulação de papel-moeda e amenizar os efeitos intensificados pela pandemia. Na verdade, a produção da nota já era planejada no ano passado, e as circunstâncias que dali seguiram apenas facilitaram o que já era pretendido.

De fato, é de se lembrar que em março deste ano nosso grupo defendeu a emissão de papel moeda para amenizar os efeitos da pandemia – e essa posição ainda permanece intacta. Afinal, fazendo um comparativo, a base monetária brasileira é bem inferior ao padrão mundial das economias mais robustas, e as emissões planejadas não causariam um excesso de liquidez. Logo no início de abril, o ex-presidente do Banco Central (Bacen) e atual secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo, Henrique Meirelles, também defendeu a emissão de papel moeda, argumentando que tal atitude não provocaria risco de inflação. “O Banco Central tem grande espaço de expandir a base monetária, ou seja, imprimir dinheiro, na linguagem mais popular, e, com isso, recompor a economia. Não há risco nenhum de inflação nessa situação”, disse.

Entretanto, há que se considerar dois fatores adicionais. Primeiro, para além da emissão de papel moeda, temos agora uma nota que carrega consigo valor correspondente a 1/5 do salário mínimo nacional; o que não é um problema por si, mas altera lentamente a percepção de precificação de produtos e serviços. Segundo, e mais importante, ainda que a emissão por si não ocasione uma inflação, o efeito inflacionário será a ela atribuído em virtude de algo simples: a inflação já está presente, apenas aguardando para ser catapultada – o que certamente ocorrerá assim que houver a apropriação de sua existência no índice oficial IPCA. E, logicamente, o alvo será pintado ao redor da nova cédula, camuflando o estupro antinacional diariamente praticado pela equipe econômica de Guedes, merecedora de banhos frios e algemas.

Para além dos efeitos mensuráveis pela teoria monetária, há também um aspecto psicológico envolvido. Veja só: hoje em dia, natural que qualquer pequeno serviço seja pago por múltiplos de cinquenta. No momento em que se pede aquele orçamento de boca, “quanto é que fica?”, o prestador joga logo cinquenta mirréis, talvez cem, quem sabe cento e cinquenta. Com a aparição da nota de duzentos, o ponto de equilíbrio das precificações caminhará lentamente para as centenas – e não por ganância daqueles que cobram, mas porque já existe um sentimento contido de que a onça pintada não tem mais a pujança que uma vez tivera, e hoje está mais próxima de ser nota de troco.

Fato é que a inflação em breve deve ser apropriada aos índices oficiais, e então terá sido dada a largada. Se Paulo Guedes ainda existir e sua incompetência nos acompanhar, argumentará que a inflação terá sido ocasionada pela pandemia, pela emissão de papel moeda, e pela insuficiente quantidade de privatizações realizadas (quanto a isso, não se enganem – a Petrobras segue sendo fatiada e rifada com celeridade). Atribuirá os efeitos catastróficos de sua passagem ao presidente Jair Bolsonaro, a quem já ameaçara de impeachment caso ousasse dar ouvidos aos ministros nacionalistas e desenvolvimentistas.

Como velho vigarista, o primata neoliberal dessa vez se comportará tal como uma ratazana, roendo nossas estruturas para depois se entocar em algum buraco ao norte – tal como o velho da Virgínia. Nunca terá a honradez de assumir a desgraça que causara à pátria brasileira, simplesmente porque a ela não pertence. 

E ainda tem quem discuta a cor do gato.

Por Vicentino

 


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