Piterson Hageland — Demagogia também ajuda a carbonizar o meio ambiente

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O descaso para com a área do Pantanal é um imbróglio extraordinariamente antigo. O flagelo escaldante dos anticonservacionistas, que vergasta o bioma anualmente, se estende por outras glebas que formam o Centro-Oeste, alcançando parte das regiões Norte (Floresta Amazônica) e Sul (Mata de Araucárias) do Brasil. Isto posto, uma novidade incidiu neste ano de 2020: uma seita de “heróis da ecologia” irromperam de modo vulcânico para defender tudo aquilo que já foi esfacelado.

Os vingadores do meio ambiente culpam — e com total razão — o parasita hospedado no Palácio da Alvorada e seu ministro correspondente ao tema, igualmente relapso; hipócrita; facínora e mentecapto. Todavia, é válido ressaltar que essa catástrofe incendiária já transcorre ostensivamente há décadas, tal como o desprezo que uma série de instituições ofertam ao problema.

A aquisição de inegáveis latifúndios pelo Serviço Social de Comércio (SESC) em alianças indecorosas com a plutocracia que rege o agronegócio expulsou uma miríade de camponeses dessas localidades, motivando o abandono das fazendas que, outrora produtivas e bem cuidadas, acabaram transformadas em rastilhos que imanizam queimadas aterradoras.

E o arrivismo politiqueiro lastreado na hecatombe socioambiental trespassa as belíssimas savanas do Brasil: com a proximidade do sufrágio municipal, o Poder Legislativo Federal busca manter o estabelecimento de comitivas parlamentares a fim de transitar pelas ruínas esturricadas do Pantanal e, obviamente, fabricar uma imagem de candidatos altruístas profundamente consternados com a depredação ecológica; que merecem um voto de confiança devido à preocupação que fingiram ter com um assunto que jamais se prestaram a contribuir para saná-lo, com muitos execrando qualquer debate pertinente à reforma agrária.

Todo cidadão munido de integridade e sensatez é expressamente capaz de perceber que o meio ambiente não precisa de uma quadrilha de situacionistas que almejam tirar vantagem do cenário desolador em que o Pantanal se encontra. O que essa caterva de pleófagos fará no chaco agora que o morticínio desfigurou a paisagem? Vão fotografar os inúmeros animais carbonizados ? Gravarão vídeos exibindo o rescaldo ? Deveriam ter feito isso antes do cataclismo, identificando as falhas e elaborando ações políticas; sociais e educacionais que impedissem tamanho descalabro.

Os pantaneiros, autênticos guardiões dessas pradarias que experimentam alagamentos sazonais, comunicaram às autoridades (ir)responsáveis sobre as ameaças que o Pantanal vem enfrentando desde o limiar do Século XX. Qual “representante do povo” se ateve às denúncias e observações dos habitantes da Bacia do Alto Paraguai? Sim, é uma pergunta retórica, dado que tal epítase é um mero atavio que configura a fábula dos ecologistas por acidente.

Através de boletins técnicos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) já alertou sobre o cultivo de grãos na órbita do Pantanal, especialmente os de soja, que alimenta os bovinos; suínos e galináceos que o baronato rural exporta por quantias irrisórias em sincronismo com a inanição dos brasileiros. Assim como a grande mídia e os bandoleiros digitais, os Três Poderes da República Federativa do Brasil seguem preterindo essa desordem; mas quando a mortandade de peixes vier à tona de maneira horripilante nos chacos, por exemplo, todos se mostrarão perplexos com a barbaridade ambiental e farão questionamentos estúrdios a respeito do ictiocídio.

É imperioso que se desempenhe atitudes contra esses vigaristas hematófagos. Legisladores que forjam cláusulas medíocres em seus gabinetes com uma porção de assessores ineptos não têm preparo científico e nem idoneidade para resolver uma complicação dessa magnitude. Se existe vontade definitiva de abolir essa crueldade, é necessário que os governantes convoquem a população autóctone da faixa do Pantanal no intuito de constituir uma junta de preservação e desenvolvimento sustentável da região com biólogos; agrônomos; químicos; ambientalistas; físicos; engenheiros; administradores; sociólogos; economistas e demais pesquisadores vinculados ao mundo campestre. Quem se apavora com insetos domésticos não possui hombridade para combater as mazelas que intimidam o panorama silvestre.

Essa renitência que os dirigentes públicos manifestam com o objetivo de ampliar a exclusão que os pantaneiros sofrem deliberadamente é mais um vestígio que ratifica a ausência de interesse dos engomados no que tange à falta de soluções concretas que eliminem a turbulência do local. Qual é o sentido de um estatuto formulado sem a presença dos indivíduos que entendem a dinâmica do atascadeiro na prática? A experiência desses ícones do folclore nacional — que sempre contornaram as adversidades do ecossistema com uma maestria singular e pouquíssimos recursos financeiros — tornou-se inútil porque eles não frequentaram o ensino superior, inverossímil na realidade ascética que permanece cristalizando a mobilidade sociopolítica das várzeas? Será que os oniscientes de escrivaninha com mandato quadrienal têm receio de que os “caipiras” terminem revelando onde é que estão os verdadeiros bárbaros desinformados que atrasam o progresso do Brasil ?

Caso haja mesmo a intenção de dissolver esse teratismo, o Congresso Nacional tem a obrigação de considerar as análises e opiniões de todas as pessoas e grupos ligados ao escopo do meio ambiente para que um legítimo código de proteção biofílica seja estruturado e vigore com o máximo de eficiência possível. Nada obstante, é fundamental que as recomendações dos pantaneiros ocupem o cerne deste regulamento vindouro. Somente com essas orientações, advindas de quem conhece a práxis que envolve as terras inundadas, é que irão reduzir a probabilidade de desgraça no Pantanal.

Se os congressistas querem visitar a planície, então que a bagagem não contenha impostura e demagogia. Procurem os residentes oficiais do lugar e solicitem o fornecimento de instruções de suas atividades básicas para que os estudos mesológicos prosperem a fim de socorrer o território com a diligência adequada. Esse é o principal elemento referente à atualização de dados e à triagem de métodos conforme o nível da imolação ambiental. Também é importante destacar que a fatuidade é incompatível com essa procissão, uma vez que ninguém dispõe da mesma sabedoria que os pantaneiros acerca de suas próprias tarefas anfêmeras. Do contrário, novos transtornos ígneos e calamidades em geral voltarão a atingir as estepes fronteiriças ao Cerrado — e os oligofrênicos morais terão o desplante de abreviar toda a negligência como uma simples e inevitável tragédia.

Autor do Texto: Piterson Hageland — Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional. Membro da Ordem dos Jornalistas do Brasil (OJB).


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