Renda Básica é cortada quando inflação de mais pobres bate maior nível

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Fim do auxílio emergencial trava a economia e agride parcela mais pobre da população, alerta entidade.

Dados da Fundação Getúlio Vargas comprovam que a inflação continua corroendo o orçamento das famílias mais pobres. O valor da cesta básica mais barata do país, em torno de R$ 390, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), já é superior aos R$ 300 da renda emergencial que o governo impôs. Com isso, a população mais vulnerável já não consegue ter acesso a alimentos. Outros gastos, como aluguel e transporte, ficam de fora.

“A pandemia escancarou diferenças e tem empurrado uma parcela enorme da população para a miséria e a fome. Diante da alta dos itens da cesta básica, estamos lutando pela renda de R$ 600 até o fim do ano porque é uma batalha justa, contra a fome e pela dignidade desses brasileiros”, defende Paola Carvalho, diretora de relações institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica – uma das quase 300 organizações da sociedade civil que estão promovendo a campanha #600atedezembro.

O objetivo da campanha é não só manter o valor de R$ 600 mensais do benefício e R$ 1.200 para mães chefes de família até o fim do ano, mas que isso se dê sem qualquer alteração nos demais programas sociais. “A iniciativa nasceu da nossa percepção de que a conta da retração econômica sobraria para os mais pobres”, explica Paola Carvalho.

Famílias mais pobres destinam, em média, 80% de seus recursos para a compra de alimentos. Os dados mais recentes mostram que a elevação do preço do arroz e do feijão, itens que sempre tiveram presença garantida no prato do brasileiro, foi de 10,64% no mês. O Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1) – que mede a variação de preços de produtos e serviços para famílias com renda entre um e 2,5 salários mínimos – registrou alta de 3,13% no ano e 4,54% nos últimos 12 meses.

Levantamento anterior da FGV já havia mostrado que quatro, de cinco itens da cesta básica, tiveram aumento médio de 20% em oito meses. Arroz, feijão, óleo e batata estão entre os grandes vilões da escalada de preços. Para a FGV, a inflação deste ano parece mais concentrada em alimentos e há sinais de continuidade dessa tendência até o fim do ano. Com isso, a inflação dos mais pobres pode terminar 2020 com alta acima da média nacional. Estudo da FGV Social revelou que 13,1 milhões de pessoas haviam saído do grupo das pessoas com renda per capita inferior a meio salário mínimo (R$ 552) até julho deste ano, em grande parte devido a medidas como o auxílio de R$ 600. Isso porque o auxílio emergencial era, em muitos casos, maior do que a renda tradicional perdida por causa do novo coronavírus. Com o corte do benefício pela metade, essa situação muda e milhões de pessoas voltam à faixa da pobreza. “Estudos já mostraram que aproximadamente 30% dos brasileiros seriam empurrados para a pobreza com o fim do auxílio”, confirma Paola Carvalho. “E isso é de uma crueldade sem limites!”

A renda básica emergencial aprovada pelo Congresso em março deste ano é resultado de um processo de pressão da sociedade civil por meio da campanha Renda Básica Que Queremos, que teve início em março deste ano, em reação à proposta inicial de apenas R$ 200 do governo Bolsonaro. Hoje, com quase 300 instituições, a campanha está voltada para reverter a decisão do governo de reduzir o valor do auxílio à metade.

Segundo a FGV, quando o benefício for encerrado, em 31 de dezembro, 38 milhões de brasileiros ficarão desamparados. São os chamados “invisíveis” ou cidadãos de baixa renda, pouca escolaridade, ocupados em atividades informais e que não estão inscritos no Cadastro Único para programas sociais e nem recebem o Bolsa Família. Entre esses “invisíveis”, informais e mulheres são os que mais se beneficiaram da política emergencial de transferência de renda.

Para Sergio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), é um erro o fim do auxílio emergencial, assim como a redução do número de parcelas e do universo de pessoas beneficiadas, porque ficou evidente o impacto importante do benefício na política de proteção social, na economia e até para os cofres do Estado, beneficiado com o retorno na arrecadação de impostos, levando-se em conta que a maior parte do dinheiro vai para o consumo.

O presidente da Fenae denuncia ainda que, apesar de a Caixa ter assumido sozinha essa função social e realizado o pagamento do auxílio emergencial para mais de 67 milhões de brasileiros, o governo Bolsonaro insiste em privatizar a instituição, enfraquecendo cada vez mais seu papel social e comprometendo os investimentos públicos em desenvolvimento regional.

Com informações Monitor Digital


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