UM PROJETO NACIONAL CONTRA A “BURGUESIA BRASILEIRA

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por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

1. Há quem diga que o “projeto nacional de desenvolvimento” é natimorto por nos faltar uma “burguesia nacional”. Para o enfrentamento deste tema, a primeira coisa que precisa ser feita é a distinção entre as noções de “burguesia nacional” e de “burguesia brasileira”.

2. O tema da “burguesia nacional” – e seu suposto caráter progressista e antiimperialista – ganhou força quando a Internacional Comunista, diante do declínio da revolução operária na Europa, voltou a sua atenção para as assim chamadas “lutas de libertação nacional” nas colônias e nos países sob o domínio do imperialismo neocolonial.

3. No Brasil, não sem razão, o tema da “burguesia nacional” esteve no centro das preocupações da esquerda até o Golpe de 1964. Desde então, as formulações políticas que supunham a existência entre nós de uma “burguesia nacional” foram crescentemente saindo de cena. Atualmente, este tema está, não sem razão, claramente superado, segundo me parece.

4. A retoma das iniciativas tendo em vista a constituição de um “projeto nacional de desenvolvimento” – que para ser “nacional-desenvolvimentista”, tem que ser anti-neoliberal e antiimperialista – não supõe necessariamente a existência entre nós de uma “burguesia nacional”: esta é a minha premissa.

5. Atualmente, a ideia de “burguesia nacional” é uma ideia politicamente inócua por lhe faltar correspondência empírica na realidade social brasileira. O que temos entre nós é uma “burguesia brasileira” – hegemonizada por sua fração rentista, umbilicalmente ligada ao imperialismo estadunidense –, e não uma “burguesia nacional”, no sentido que se tornou clássico por obra dos teóricos da Internacional Comunista e, posteriormente, da CEPAL.

6. Como não há uma “burguesia nacional”, é possível ainda se falar de “projeto nacional de desenvolvimento”, sabendo-se que, para ser “nacional-desenvolvimentista”, ele precisa necessariamente ser anti-neoliberal e antiimperialista? A minha resposta a essa pergunta retórica é: sim! Se no passado, o projeto “nacional-desenvolvimentista” esteve atrelado à aposta de que entre nós havia uma “burguesia nacional”, de caráter progressista e em contradição com o imperialismo, hoje ele pode, e deve, prescindir daquela aposta, como condição de possibilidade. Senão, vejamos…

7. Digo isso, porque tal projeto, pelo menos em tese, interessa objetivamente aos trabalhadores (formais, informais e precarizados), aos “empreendedores” individuais, aos desempregados, aos jovens, aos pobres da cidade e do campo, a amplos setores das classes médias, a muitos pequenos empresários, e, mesmo, a setores do médio empresariado. Esta base social deve cobrir perto de 80% da população. Vou chamar este contingente enorme de “povo brasileiro”.

8. Um “projeto nacional de desenvolvimento” só será exitoso se puder galvanizar as vontades dispersas e atomizadas de parte considerável desse 80% da população, dando-lhe a identidade política de um povo em luta contra o imperialismo e seus aliados internos. (Quem são os aliados internos do imperialismo senão a “burguesia brasileira”, com a fração rentista e a grande mídia à frente?)

9. Não será, a meu ver, com a pregação que nega o projeto “nacional-desenvolvimentista” – por considerar que “dentro da ordem não há saída para crise” – que conquistaremos corações e mentes em número suficiente para derrotarmos, aqui e agora, o imperialismo, seus aliados brasileiros e sua agenda de desmanche do Estado e dos direitos que está nos levando ao caos social, político e econômico.

10. Uma análise baseada na luta de classes, tal como ela se apresenta no Brasil, deve nos fazer compreender, segundo penso, que a concepção de “povo em luta contra o imperialismo” – mediante um projeto nacional de desenvolvimento, de caráter popular e democrático – é a única que pode organizar forças capazes de nos fazer sair da crise. Um projeto “nacional-desenvolvimentista” bem que pode ser a forma inicial para que o povo perceba que a sua luta imediata é uma luta antiimperialista, na “ordem” e, no limite, contra a “ordem”.

 


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