Nacional-trabalhismo: a realidade neoliberal

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Iniciemos com a transcrição do maior pensador do Brasil, com os recursos da vida e alma brasileiras, o professor, antropólogo Darcy Ribeiro (Darcy Ribeiro, O Dilema da América Latina, Editora Vozes, Petrópolis, 1978), tratando do poder:

“Num plano mais abstrato, o mesmo conceito (de poder) concerne à capacidade que têm as classes dominantes de ordenar a vida social como um sistema político que impõe sua supremacia em todas as esferas, capacidade que alcançam graças à combinação de distintos mecanismos de exploração econômica e de controle político e militar e de doutrinação ideológica. Dentro desta perspectiva, o conceito de poder diz respeito ao processo que dinamiza o sistema político em que se entrechocam forças sociais antagônicas (conflito político), com capacidades distintas de organização e de imposição de seus interesses e aspirações (dominação-submissão), seja para impor a preeminência de uns sobre os outros (hegemonia); seja para manter a ordem vigente exercendo, nas situações de crise, a coação e a violência contra grupos recalcitrantes (repressão), ou nas situações mais estáveis, utilizando mecanismos de controle ideológico (coerção); seja para transformar parcialmente a ordem estabelecida a fim de preservar certos corpos de interesses (reforma); seja, finalmente, parra erradicá-la e instituir uma ordenação social distinta regida por uma nova estrutura de poder (revolução)”.

Ainda, “num último plano ainda mais complexo, o conceito do poder se refere às situações de interdependência econômica assimétrica de âmbito mundial que configura algumas nações como polos de dominação (imperialismo) e outras como áreas de espoliação (dependência). A cada uma destas posições corresponde internamente uma estratificação social e uma estrutura de poder com virtualidades e limitações distintas para explorar as potencialidades das conquistas tecnológicas de uma civilização”.

Por fim: “As áreas periféricas, configuradas como proletariados externos, são regidas por classes dominantes consulares que, fundando sua prosperidade na própria dependência, mercê de sua associação com núcleos empresariais e governamentais estrangeiros, operam como comandos gerenciais exógenos que limitam o desenvolvimento nacional aos níveis e graus conciliáveis com a manutenção dos vínculos externos (subdesenvolvimento). Nestas últimas situações, às vicissitudes internas provenientes de uma exploração classista ainda maior (constrição patronal-patricial) se somam os externos (constrição imperialista) resultante de um sistema assimétrico de intercâmbio em que os povos pobres são os que subsidiam os povos ricos”.

Tivemos um Brasil colônia que conheceu movimentos bélicos, pacíficos e propostas emancipatórias, desde o início da presença europeia (1500) até a Revolução de 1930. Foi um Brasil de escravos e de analfabetos. Recordemos que o Ministério do Trabalho e o Ministério da Educação surgem por iniciativa do Governo Provisório de Getúlio Vargas, ainda em 1930. De 1930 a 1980 tivemos, com avanços e recuos, o desenvolvimento do Brasil Soberano e, com muitas restrições e ainda maiores combates, a construção do Brasil Cidadão.

Nos anos 1980, o mundo foi tomado pela agressão financeira com as desregulações para operações da banca e com a doutrinação liberal, vestida com a nova roupa, o neoliberalismo, contra o Estado representante e protetor da população. Foi também o fim de Estados Socialistas e parecia ser igualmente o fim da história dos homens, sendo criado o mundo da história das finanças.

Os documentos fundadores do nacional-trabalhismo tiveram em mira a história do homem, seu trabalho, sua liberdade e o respeito devido a todos demais. Nisto se diferencia do liberalismo individualista e das submissões homogeneizadoras, equalizadoras. Precisamos desenvolver agora, mantidos os mesmos propósitos humanitários e de autonomia nacional, um projeto que se oponha e vença a banca, o capital financeiro, estas novas formas de dominação das pessoas e das suas instituições protetoras e de defesas.

Este projeto não pode ficar nas retóricas e nos vazios que intercalam as eleições. “Não há propaganda, por mais elaborada, sofisticada e massificante, que sustente uma personalidade pública (ou um partido político) sem realizações que beneficiem, em termos materiais e simbólicos, o cotidiano da sociedade” (Jorge Ferreira, O imaginário trabalhista, Civilização Brasileira, RJ, 2005).

Mas o engodo, a farsa que acompanha o neoliberalismo, também nos está sendo imposto sob a forma da religião neopentecostal. Em 2013, uma lista de milionários publicada pela revista Forbes colocava, entre os mais ricos do Brasil, três donos de igrejas da “teologia da prosperidade”.

O mais rico é o “Bispo” Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietário entre outros bens no Brasil e no exterior, da Rede Record de televisão, do canal de notícias Record News e do jornal Folha Universal, com 2 milhões e 500 mil exemplares.

O segundo pastor milionário é Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus. Conta com mais de 2 mil templos espalhados pelo Brasil, sendo a sua maioria no Estado de São Paulo. Em janeiro de 2013, a Forbes avaliou sua fortuna em aproximadamente US$ 220 milhões. Este líder religioso, em vídeo publicado no YouTube em maio de 2020, afirmava que a cura da Covid-19 poderia ser obtida através de uma semente de feijão, que é vendida por R$ 1 mil a seus fiéis.

Fechando estes “pastores” está o presidente da Assembleia de Deus Vitória de Cristo, Silas Malafaia, conhecido pela presença na política apoiando candidatos da extrema direita e defensores do sistema financeiro internacional, a banca.

Certamente todos estão se questionando sobre a possibilidade de pessoas mais intelectualizadas, com maior tempo de instrução formal, caírem nestes contos da carochinha de sementes de feijão. Mas há um fenômeno que não é novo, mas que ganhou extraordinária relevância com o aprisionamento pela banca dos recursos da teoria da informação, desenvolvidos a partir dos anos 1940. As realidades são criadas antes de ocorrerem e virão apenas confirmar o que já se havia estabelecido previamente pelos donos do poder.

 

Vemos, por conseguinte, que as assimetrias de hoje vão muita além das forças econômicas e militares. O psicossocial ganha extraordinário poder e que o domínio das mentes possibilita a nova escravidão, às vezes até comemorada pelos escravos, mais profunda e duradoura. Se os escravos do século XIX recebiam, ainda que precários e mínimos, abrigo, alimentação e vestes dos senhores, os escravos uberizados de hoje pagam por todos os seus instrumentos de trabalho e não têm qualquer proteção da parte dos novos e incógnitos donos. Novamente Pepe Escobar: “O 0,00001% (que) acompanha confortavelmente, de cima e de longe, a carnificina, nem tão exclusivamente metafórica”.

Quer pelo aspecto nacional quer pelo aspecto trabalhista, esta resposta e esta solução de características brasileiras, o nacional-trabalhismo engloba as orientações para a luta libertadora que devemos empreender.

 

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

Com informações Monitor Digital


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