Petrobrás renega sua História de ousadia ao desistir de investir em renováveis

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Enquanto algumas petroleiras internacionais anunciaram novidades em direção a projetos de energias renováveis nas últimas semanas, a Petrobrás tem reforçado sua decisão de focar seus esforços em óleo e gás e deixar de lado as fontes limpas. A postura da estatal brasileira não é uma unanimidade no mercado e é alvo de críticas por parte de executivos e especialistas do setor. O geólogo Luciano Seixas Chagas, aposentado pela Petrobrás após 31 anos de atividade na empresa, é um dos que alertam para as consequências negativas dessa estratégia. O entrevistado lembra que a Petrobrás tem um histórico de investir em fontes alternativas, além de um passado de ousadia na exploração de novas formas de produzir energia. “Temos incidência solar alta, cavernas de sal e expertise para produzir hidrogênio. Mas não temos, neste momento, uma estatal agindo como indutora de desenvolvimento, investindo em energias alternativas. Isso contraria toda a história de ousadia da Petrobrás dos últimos anos”, declarou. Chagas afirma ainda que a Petrobrás possui plenas condições de desenvolver projetos em energias limpas, ao contrário do que diz o presidente da empresa, Roberto Castello Branco. O geólogo questionou também a estratégia adotada pela atual gestão: “Castello Branco diz que não defende combustível fóssil, ao mesmo tempo em que a Petrobrás só investe em um projeto, que é o pré-sal. Se ele não defende combustíveis fósseis, por que não investir então em energias alternativas, para dar sobrevida à empresa?”, questionou.

Como o senhor avalia a estratégia da Petrobrás de focar em petróleo e não investir em outras fontes de energia ?

A Petrobrás está indo na contramão da sua própria história. A empresa foi a primeira a usar folhelho betuminoso, no Paraná. Trata-se de uma energia alternativa, já que não é uma extração de petróleo convencional. É um processo até mais avançado do que o fracking. A Petrobrás também foi pioneira no álcool e, consequentemente, na biomassa, fazendo com que plantações de cana se estendessem pelo Brasil.

A Petrobrás sempre foi ponta, ao longo de sua história, nas energias alternativas. Então, é com muita apreensão que observo que a empresa não está trilhando um caminho que sempre trilhou. Isto é, ser uma estatal comprometida com o desenvolvimento do Brasil.

O atual presidente da Petrobrás alega que a empresa não possui competência para investir e atuar em renováveis nesse momento. O senhor concorda com essa afirmação ?

A Petrobrás tem um excelente quadro técnico e um centro de pesquisa montado para viabilizar qualquer projeto de energias alternativas. Hoje, uma das alternativas para substituir o petróleo é o hidrogênio. Na Alemanha, por exemplo, a fonte solar é usada durante o dia para quebrar [a molécula do] hidrogênio. Esse hidrogênio, por sua vez, é armazenado em cavernas de sal e usado à noite para geração de energia. O hidrogênio é uma alternativa usada no mundo inteiro, sendo processado através de energia fotovoltaica. Toda a Europa está caminhando nesse sentido.

A Petrobrás está falhando em seu papel de indutora de desenvolvimento. O presidente Roberto Castello Branco, que tem uma visão financeira, não está olhando para o país. O Brasil precisa desses desenvolvimentos. Historicamente, quem investe nos projetos mais arriscados são as estatais. A Petrobrás não foi criada para ser uma mera empresa que dá lucro aos acionistas. Na verdade, a empresa foi criada como instrumento de desenvolvimento do país.

O senhor mencionou os investimentos de alto risco feitos por estatais. O pré-sal, por exemplo, foi um investimento deste tipo por parte da Petrobrás…

Sim, foi um investimento de altíssimo risco. O pré-sal só foi descoberto porque a Petrobrás existia. Todos os geólogos já desconfiavam da existência de óleo no pré-sal. A Petrobrás arriscou em um prospecto de água profunda e descobriu essa riqueza. Nenhuma outra companhia se arriscou nesse tipo de pesquisa em fronteiras exploratórias. Depois que a Petrobrás descobriu o pré-sal, todos passaram a desejar comprar ativos na área. Ninguém quis correr o risco.

O pré-sal é um projeto com um baratíssimo ponto de equilíbrio (break even). A camada concorre com os reservatórios do Oriente Médio. Não porque seja mais barato de fazer poços na camada, mas por conta de sua alta produtividade.

Há uma segunda fronteira no pré-sal, que são as novas descobertas anunciadas recentemente. A Petrobrás descobriu óleo além do polígono delimitado do pré-sal. O pré-sal é uma fronteira ainda não delimitada. Fora do polígono do pré-sal, em direção ao mar profundo, ainda há muitos recursos prospectivos bem definidos que tem de ser pesquisados.

Então, a Petrobrás deveria adotar a mesma postura ousada em relação às energias alternativas ?

No caso das energias alternativas, a Petrobrás tem expertise, engenheiros, capacidade intelectual e conhecimento para desenvolver qualquer alternativa. Quer seja sol, vento ou hidrogênio. O Brasil tem ainda as cavernas de sal. Eu mesmo trabalhei em 1964 no Amazonas, na área de Fazendinha, onde tinha sal para ser usado como fertilizante ou para armazenamento de hidrogênio. Mas não estamos fazendo nem uma coisa nem outra.

Ou seja, temos incidência solar alta, cavernas de sal e expertise para produzir hidrogênio, mas não temos, neste momento, uma estatal agindo como indutora de desenvolvimento, investindo em energias alternativas. Isso contraria toda a história de ousadia da Petrobrás dos últimos anos.

Quais são os riscos para a Petrobrás ao não investir em renováveis e focar apenas em fontes fósseis ?

Cada vez mais, você vê os governos limitando o financiamento em petróleo. A Europa toda praticamente não tem produção de petróleo em solo pátrio. E o petróleo, não tenha dúvida, polui. Não sei se tem um efeito tão catastrófico quanto o anunciado. Mas o fato é que um dia o petróleo vai deixar ser econômico. As energias alternativas, ditas limpas, vieram para ficar.

Com essa postura da Petrobrás, o Brasil vai perder rapidamente o seu papel preponderante. Não podemos deixar o papel de explorar o potencial do país apenas na mão da iniciativa privada. Esse potencial tem que ser explorado também por uma empresa estatal. Uma companhia privada só investe para um projeto imediato.

O argumento usado pelo Castello Branco para justificar o foco máximo em ativos do pré-sal é que o óleo enterrado não dá dinheiro. Isso é parcialmente verdade. Agora, ele está apostando no pré-sal, mas a empresa vendeu ativos do pré-sal e do pós-sal a preço de banana.

O Castello Branco está esquecendo que o petróleo não tem valia a partir de 2030 ou 2040. E aí, quando acabar a era do petróleo, a empresa vai sobreviver de quê ? Qual é o planejamento estratégico por trás dessas preposições ? 

O presidente Castello Branco declarou recentemente que o petróleo ainda gera muito valor para a economia global, mas disse também que não “defende os combustíveis fósseis”. Como avalia essa postura ?

Eu acho que quem não defende combustíveis fósseis não deveria trabalhar com eles. Eu vejo uma falta de coerência individual do senhor Roberto Castello Branco. Se eu não defendo algo, porque eu contribuo com aquilo? Então, qual o objetivo dele na Petrobrás? É não defender combustível fóssil, não investir em alternativa e quebrar a companhia? O Castello Branco está pagando dividendos sem lucros, desverticalizou a companhia completamente e manteve a política de preço de paridade internacional, facilitando a importação de petróleo. Eu não vejo como o Brasil está se beneficiando com essa política.

Castello Branco diz que não defende combustível fóssil, ao mesmo tempo em que a Petrobrás só investe em um projeto, que é o pré-sal. Se ele não defende combustíveis fósseis, por que não investir então em energias alternativas, para dar sobrevida à empresa? Ou o objetivo é, realmente, findar com a Petrobrás? Qual a coerência? Essas são questões que precisam ser colocadas para as pessoas que pensam nesse país.

O Brasil era o melhor país do mundo usando renovável, hidrelétrica e óleo e gás. E esse mix vai ficar desbalanceado uma hora dessas. Eu acho muito arriscado para o Brasil confiar apenas no investimento das empresas privadas. Não que esses investimentos sejam ruins. O que eu digo é que o setor privado vai de acordo com seu interesse. Qual a capacidade que tem uma empresa privada de alavancar recursos para fazer um projeto de energia limpa no Brasil?

O presidente dos EUA, Joe Biden, está colocando recursos na transição energética. A Angela Merkel [Chanceler da Alemanha] e os demais europeus também. E o Brasil? Qual o projeto de governo para uma matriz energética limpa? Se alguém souber, me conte.

Com informações Petronoticias

 


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